—E meu afilhado—interrompeu iroso o fidalgo—consente que se recolha em sua casa o roubador de minha filha, da filha de Ruy de Nellas, a quem elle deve tudo o que é?!

—Lamento,—disse Ladislau—que meu cunhado aqui não esteja para dignamente responder a v. ex.ª. Eu não tenho a virtude nem as expressões santas, persuasivas, e affectuosas do afilhado de v. ex.ª. Estou aqui, porque a doença ha tres dias o tem a elle na cama: apressei-me a vir para que o padre, despresando a enfermidade, não viesse por este mau tempo arriscar a vida. As intenções, todavia, de meu cunhado, acolhendo em sua casa Casimiro Bettancourt, são obvias e justas. Os dous, desgraçados pela cegueira do amor, foram pedir ao sacerdote a benção matrimonial; o sacerdote não podia abençoal-os sem consentimento de v. ex.ª, e não podia tambem abandonal-os sem faltar á caridade que professa, á sua propria consciencia, e ao que deve ao sr. Ruy de Nellas. Abrir mão d’elles, na situação em que os viu, o mesmo seria declarar-lhes que não ha divina nem humana misericordia. Elles iriam porta fóra desconfiados da virtude do ministro de Deus, em que tinham posto sua esperança, e julgar-se-iam desquites de serem ou procurarem ser virtuosos...

—Bem!—atalhou Ruy, a que vem o senhor?

—Implorar a v. ex.ª consentimento...

—Para se casarem?

—Sim, senhor.

—Sabe o que pede? o sr. Ladislau sabe o que pede?!—bradou o fidalgo com os olhos afuzilando ira e gestos descompostos.

—Sei que peço, segundo meu cunhado diz, o unico remedio de tal desgraça.