Tirou Casimiro do bolço interno da fardêta duas cartas. Abriu a primeira, lançou-a sobre a meza, e disse:
—Conhece essa lettra?
—Conheço—respondeu D. Alexandre—é de meu tio Ruy de Nellas Gamboa de Barbedo.
—Pai de minha mulher—ajuntou Casimiro, voltando-se aos academicos circumpostos; e fallando para elles, continuou:
—Como eu soubesse que o sr. D. Alexandre me alcunhava de receptador dos furtos de minha mulher, escrevi a um homem de bem, pedindo-lhe que se apresentasse ao sr. Ruy de Nellas, meu sogro, perguntando-lhe se sua filha, no acto da fuga, subtrahira de casa algum objecto de valor, e o declarasse por escripto. Esta segunda carta é a resposta da pessoa encarregada; e diz:
«O correio só dá tempo a dizer-lhe que o sr. Ruy de Nellas, apenas me ouviu, e escreveu a declaração que contheuda remetto, e mostrou-se espantado de que a calumnia propale o que elle nunca disse; e de o não ter dito m’o jurou pela alma de sua mulher, e honra de suas filhas. Sem mais. Seu amigo, P. João Ferreira.»
—Leia-a agora o sr. D. Alexandre a declaração de seu tio.
—Leia-a o senhor!—bradou com grande esforço de falsa coragem o calumniador esmagado.
—Leia-a!—tornou Casimiro com um lançar de olhos fulminante.
O fidalgo tomou o papel nas mãos convulsas, e deixou-o logo cahir.