—Tenho nora!

—Tens nora? exclamou Euphemia—Então diz-t'o? ella quer?

—Não se explica bem; mas eu já lhe entendo o palavriado. Ouve lá, mana.

E releu a carta, accentuando cada palavra com intimativa perspicaz para emfim interpretar complexamente que D. Maria José de Portugal se achára de salto possuida do amor que ella, em sua linguagem perlicteta, chamava anhelos.

—Essa palavra anhelos—observou D. Euphemia, arregaçando o beiço de baixo, com o dedo indicador—parece-me que é isso mesmo que tu dizes, mana Rozenda... Não te lembras... ora pucha pela memoria... não te lembras das cartas que te escrevia aquelle furriel{51} de lanceiros quando ficaste viuva? Chamava-te meu anhelo.

—Não era o furriel—corrigiu Rozenda.—Quem me chamava seu anhelo era o Peixoto.

—O capitão da carta? Tens razão; era esse... Pois dizes bem; o que ella quer dizer é isso. Anhelo é amor. Ora espera, mana... Eu tambem agora me estou a recordar de não sei quem que me dizia que eu era os seus anhelos, ou anhelitos... Não sei se era aquelle tenente de marinha que nos deu de almoçar na barcaça dos banhos, se era o Januario da rua dos Fanqueiros...

E, reparando na melancolia da irman, disse adocicando o tom:

—Estás triste, mana! Já sei o que é... Lembrei-te o Peixoto... Se eu soubesse...

—Ai!—suspirou Rozenda pondo a mão no lado esquerdo do peito—Ainda aqui me palpita por esse ingrato! Quando o encontro ainda não sou senhora de mim! Se amei alguem n'este mundo, foi elle! Dizias-me tu, quando o perfido se casou, que o melhor systema era o teu:—amar outro até esquecer aquella pessoa. Bem quiz... mas vou-te agora confessar que nem o deputado Elias me fez esquecer o Peixoto!...