—Não é tanto assim, mana...—emendou Euphemia.—Já depois andaste muito apaixonada{52} pelo conego Antunes, pois não andaste?

—Gostei d'elle—respondeu Rozenda langorosamente requebrada.—Não desgostei... mas amar de paixão foi só uma vez... Ai! o Peixoto! o Peixoto! não sei que feitiços me fez!...

Concentrou-se largo espaço com os olhos vidrados de lagrimas, e exclamou por fim com abrupta cólera:

—Canalhas! O Elias, quando depois foi ministro, pedi-lhe que me arranjasse uma pensão já que o meu defunto Alves perdeu tudo na politica dos Cabraes, e nada me fez o patife! O conego Antunes, quando foi despachado bispo para o ultramar, pedi-lhe que fallasse aos ministros na minha pretenção, e safou-se sem me dar cavaco! Corja de tratantes! que tornem para cá!...

Não pareça caricatura a vaidosa precaução com que a snr.ª Picôa se resguarda ou finge acautelar-se das tentaçoens, escarmentada por varios casos funestos. As decepçoens experimentadas podem ainda aproveitar-lhe, se ella esconjurar os embellécos de um major reformado que protestou induzil-a a trahir certo professor de bellas-artes, cuja ternura, como se viu, não tapa os lacrymaes sempre gottejantes da saudosa Rozenda, quando lhe punge na{53} lembrança a imagem do capitão da carta—aquelle Peixoto que lhe desfibrinou o melhor sangue do coração.

D. Rozenda não pôde ainda atravessar despercebida a corrupção do seculo. Tem quarenta e sete annos remoçados pelas madeixas postiças que lhe inquadram o rosto besuntado de posturas. Piza ainda com a firmeza e garbo de meneios que hoje em dia deshonestam o decoro de quem os usa; mas que, n'aquelle tempo, era o estylo das damas que haviam já florecido em 1834, e não mostravam desesperado empenho em ser citadas como exemplares de castidade. Favorecida pela magrêza que, no lapso de trinta annos, desilludira os enfeitiçados de sua elegancia, desde o seu defunto Alves até ao conego, desde o lyrico amador, que lhe chamava anhelo, até ao major reformado que lhe chamava o osso do seu osso, D. Rozenda estofava e boleava os musculos, mantendo a flexibilidade e donaire que muitas damas ainda viçosas perderam logo que os tecidos espessos refegaram e descahiram placidamente.

Lisboa, como todas as capitaes das naçoens que tem civilisação, gaz e ostras, encerra bastas mulheres da tempera de Rozenda, pomos menos prohibidos que sorvados, creaturas observantissimas, em demasia talvez, d'aquelle{54} preceito colonisador com que Moysés justifica Rozenda e as outras philogynias dadas ás contemplaçoens geneticas.

Isto de acabar cedo para o erotismo, o esfriar do sangue, o atrophiar dos nervos, é triste condão das mulheres provincianas.

As que viveram cinco annos da mocidade, curvadas sobre o berço dos filhos, estillaram no seio d'elles todo o seu coração, bafejaram-lh'o nos beijos; o namorado brilho dos olhos desluziram-lh'o as lagrimas de uma noite desvelada á cabeceira de creancinha enferma; sorrisos de amor ou desdem perderam a doçura ou o agro,—já a ninguem enlouquecem de jubilo ou desesperação: é um sorrir para filhos e para Deus que lh'os ha-de manter e guiar. Isto é formoso e santo; mas as mães assim envelhecem cedo; as cores do rosto esmaia-lh'as o gear interno; não lhes esmalta a vida uma restea do sol da alma, não as desperta o alvoroço de sonho apaixonado, nem a esperança lhes enxuga nas palpebras cerradas uma lagrima de saudade. Ninguem as vê, ninguem as ama; porque, na voluntaria abdicação da mulher esquecida de si, e toda absorvida nas graças das vidas que estremece, ha uma glacial repulsão que não deixa aquecer em peito de homem desejo impuro. Os filhos, que a rodeam, são uns como que baluartes sagrados.{55} Primeiro amor e ultimo, maternidade, insulação, muitas maguas, raras alegrias, uma primavera com flores abertas, e logo fenecidas; e depois, memorias sacratissimas, e a posteridade que attribue a sua honra á benção da alma digna do céo.

Ó Lisboa, que vantagem levaria a tua civilisação á das provincias, se lá houvesse duas d'estas mulheres, além d'uma que é decerto a esposa do leitor!{56}
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