[VI
O SANTO CORAÇÃO DE FILHA]

Tu lanças de ti tres raios:

Belleza, innocencia, aurora.

GUILH. BRAGA, Heras e Violetas.

Acudiu pressurosa Rozenda ao chamamento de D. Maria; e, para logo mostrar á conspicua menina que lhe percebera as figuras do estylo, entrou exclamando ridentissima:

—Com o amor não se brinca, minha querida menina. Quando o coração empurra, a cabeça vae para diante. A gente, por mais que faça, não resiste ao que tem de ser. E máo é que nos amem; que nós, frageis por natureza, mais hoje, mais amanhan, amamos quem nos ama, não acha?

D. Maria José, fitando os explendidos olhos na illuminada e tregeitosa cara da snr.ª Picôa, quedou-se pasmada sem perceber nem responder.{58} A mulher anhelada do capitão da carta, attribuindo a pudor o silencio espantadiço da menina, continuou gesticulando como creatura de ralé, que não houvesse sido polida pelo deputado Elias e pelo conego Antunes:

—Não se acanhe, que eu bem sei o que é um coração de donzella. Já por lá passei; e, pudesse eu voltar aos dezoito, que escolheria onde quizesse e me fizesse conta. Eu sempre gostei dos homens sabios; mas, como não amei senão o meu Alves, fiquei sem saber o que é a satisfação de estar uma senhora constantemente a ser adorada de um poeta. O meu defunto não era tolo; mas tambem d'isto de sciencias e escrever nas folhas não sabia nada. E, veja o que são as coisas, o meu Victor Hugo sahiu esperto como a menina vê e o sabe apreciar melhor que eu! Dizia-me a este respeito o deputado Elias, que foi meu hospede—a menina bem se lembra d'aquelle deputado baixo e gordo—pois dizia-me elle, muito admirado do talento de Victor, que o menino havia de vir a ser em Portugal uma coisa grande. E eu por amor disso, não me poupei a despezas: mandei-lhe ensinar tudo quanto ha... Ainda bem que elle achou uma senhora que lhe soube dar a devida estimação!... Ha muitas meninas em Lisboa que namoram asnos—perdoe-me a expressão que não é muito {59} civilisada. O que ellas querem é chelpa, e marido seja lá como fôr. São raras as que sabem apreciar a poesia e os dotes de um rapaz fino. Graças a Deus que o meu Victor Hugo amou quem é digna delle! Cheguei ao que tanto desejava... Vou ter uma filha que me ha de dar netos muito lindos... Se não fosse ser ella quem é, eu não queria ainda ser avó...

D. Rozenda cascalhava umas casquinadas com o mais desgracioso e tolo artificio, quando D. Maria perguntou serenamente:

—Então o snr. Victor vae casar?

—Se vae casar!—acudiu Rozenda estupefacta—Pergunta-me isso a menina?

—Sim, minha senhora... Pois não acaba de me dizer que seu filho encontrou uma menina que o sabe apreciar!?