—Ora essa!—tornou a mãe do poeta, avincando o sobrôlho—ou a senhora está a desfructar-me, ou estou doida varrida! Pois a menina não me escreveu uma carta...

—Sim, escrevi, pedindo-lhe o favor de aqui chegar...

—Para me contar os seus anhelos...

—É verdade, para lhe contar que sou feliz com a certeza de que posso ser util a meu pae, que recebe esmolas dos portuguezes... envergonhados de estar um principe portuguez mendigando o pão estrangeiro...{60}

—Ah!—atalhou Rozenda, prolongando a exclamação á medida do seu azedume mal disfarçado—Então, pelos modos, a menina quer dar o seu dinheiro ao snr. D. Miguel?!

—Com a melhor vontade e o mais inteiro contentamento. Nunca me senti feliz como hoje. Imagino que cada pessoa deve receber dos thesouros do céo egual porção de bens da alma, de alegrias puras. A uns sorri a fortuna em gosos de cada dia; a outros, em meio de muitos annos lutuosos que passaram e de outros escurissimos que hão de vir, abre-se-lhes o céo em subitas torrentes de felicidade, que trazem comsigo em uma hora todos os jubilos de longa vida satisfeita.

D. Rozenda abria a bocca a vêr se percebia, emquanto D. Maria de Portugal continuava:

—Foi Deus comigo liberal e justiceiro, dando-me esta occasião de poder mandar a um rei sem throno, e a um principe portuguez sem tecto que o cubra nos paços dos reis seus avós, recursos que devem ser valiosos para o indigente que os pede; e confio que elle os receba sem pejo porque lh'os manda uma filha.

—Então a menina—repisou D. Rozenda em tom reprehensivo—quer dar o que tem e ficar pobre!?... Estou passada! Que tenciona fazer depois, não me dirá? Sim... pergunta a{61} minha curiosidade, depois que der as suas inscripçoens e a sua casa, para onde vae?

—Eu ainda lhe não expliquei todo o meu pensamento...