—A snr.ª D. Maria José tem o coração de uma pomba;—proseguiu a snr.ª Picôa, desdenhando a interrupção explicativa—mas ha de dar-me licença que eu lhe diga que não tem juizo para regular a sua vida... Coração toda a gente o tem; mas cabeça... isso é raro.

—Eu lhe respondo, snr.ª D. Rozenda—insistiu reportadamente a filha do snr. D. Miguel, soffreando a redea aos instinctos soberbos que por natureza e raça lhe deviam beliscar o pundonor.—A minha tenção não é mandar a meu pae tudo quanto possuo. Elle mesmo receberia com desprazer, se o não recusasse, o beneficio de uma mulher que depois da sua imprudente liberalidade, se expozesse aos aviltamentos que marêam a pobreza, e a não deixam mostrar-se á luz a que as senhoras opulentas costumam alumiar as suas virtudes. Repito, minha senhora, não dou ao snr. D Miguel tudo que possuo; mas decerto lhe darei tudo que me sobra. Eu vivo com pouco. A minha amiga sabe que os meus alimentos e vestidos não requerem grandes despezas; mas, ainda que eu estivesse habituada{62} ás pomposas superfluidades da dispensa e da guarda-roupa, corrigiria as loucas demasias, logo que soubesse que meu pae pedia aos homens de quem foi rei os sobejos da minha mesa e do meu toucador.

—Mas...—interrompeu D. Rozenda com ar de quem entendêra.

—Deixe-me dizer o resto, e depois ouvil-a-hei com prazer, minha senhora. Tenho esta casa e nove contos de reis em inscripçoens. A casa não a dou por ora, mas dal-a-hei tambem, se meu pae carecer do valor d'ella, e irei servir, se com o meu abatimento e baixesa puder obstar a que o aviltem. O producto das inscripçoens quero enviar-lh'o, excepto a quantia precisa para eu abrir n'esta casa um estabelecimento de luvas.

—Luveira!—bradou D. Rozenda persignando-se e exprimindo pausadamente as palavras da cartilha—Luveira! a filha do snr. D. Miguel! Ó céos, que escuto! Que dirá sua mãe no outro mundo se a vir a fazer luvas!

—Minha mãe, se me vê do outro mundo, ha-de abençoar-me—respondeu placidamente D. Maria José.—Não ha trabalho deshonroso, nem ociosidade honrada, snr.ª D. Rozenda!... Que dirá minha mãe no outro mundo, disse a senhora! Pois eu não sei a vida de minha infeliz mãe nos seus ultimos annos! Não a{63} conheci apparentemente rica? Não vi sahirem da cocheira a carruagem e os cavallos penhorados? Esqueci eu já que minha mãe teve um hotel, e que nem ahi, em tão obscura e humilde paragem, a desfortuna deixou de a perseguir? Que mais brasoens tem a hospedaria que a loja de luvas?

—Faz differença...—explicou D. Rozenda em desaffronta do seu hotel na travessa do Estevão Galhardo—faz muita differença, muitissima! A dona d'um hotel está nas suas salas, no seu escriptorio, tem criados que servem, e dispensam de tratar cara a cara com os hospedes, percebe? A menina bem sabe que eu nunca admitti á minha mesa, senão o deputado Elias, que depois foi ministro, e o conego Antunes, que depois foi bispo. Eram dois cavalheiros que me tratavam com o maior respeito, e nunca me disseram a menor desattenção n'um tempo em que eu não deixava de ser galantinha. Ora, agora, uma luveira é outra coisa. Tem de estar ao balcão á espera de quem vem. Entra um, entra outro, chalaça d'aqui, chalaça d'acolá, faz lá idéa?! E, quando se tem a cara da menina, imagina lá os atrevimentos que lhe hão de dizer os rapazes, ainda que saibam que a menina é filha de quem é? Hoje em dia, não se respeita senão o dinheiro... Luveira! a snr.ª D. Maria José de{64} Portugal luveira! Sabe que mais? A menina leu tanto que tresleu! Essa sua idéa faz-me lembrar o theatro onde apparecem passagens que não acontecem n'este mundo. Se leu em novellas algum caso d'esses, mande as novellas e mais quem as fez ao diabo, que não fica rico com o presente. Os romances são patranhas que perturbam as cabeças do sexo sem pratica do mundo, como bem dizia o conego Antunes. Emfim, minha senhora, o dinheiro é seu, póde atiral-o á rua, se quizer; mas eu, para desaggravar a minha consciencia de escrupulos, declaro-lhe que faz grande asneira, e perdôe a expressão, que não é muito civilisada.

E como D. Maria permanecesse largo tempo silenciosa, folheando distrahidamente um livro, D. Rozenda colligiu que a mudez era perplexidade, e talvez uma saudavel reconsideração, devida ao acêrto de suas razoens. Vaidosa pois do triumpho, ganhou fôlego e proseguiu:

—Quer a menina fazer bem a seu pae? Dê tempo ao tempo. Arranje-se primeiro. Case com quem saiba augmentar a sua fortuna, e depois reparta do que lhe sobejar; mas de feitio que os seus filhos não fiquem a pedir, por causa de serem netos d'uma pessoa real. Pois não é assim? Se a senhora D. Maria der{65} o que tem, e se puzer a vender luvas, cuida que acha pessoa de teres que a queira para esposa, apesar de ser muito linda? Não ha de faltar quem a queira; mas a felicidade, que lhe ha de vir d'esses pretendentes, Deus m'a desvie da porta pela sua divina misericordia...

—Está bom!—cortou D. Maria José, com enfado e sobranceria.