—Não se zangue, minha senhora... O que eu lhe digo é o que sua mãezinha lhe diria...

—Não offenda a memoria de minha mãe, que foi uma desgraçada digna de respeito.

A viuva do mercador de couros sorriu então com um tão brutal esgar de bocca e olhos que fez transluzir no semblante de D. Maria a raiva de ver-se affrontada por aquelle tregeitar de beiços que lhe pareceram estar escarnecendo a memoria de sua mãe.

—De que se ri a senhora?—perguntou desabridamente.

—De que me rio? Pois a gente não ha de rir-se, quando ouve dispauterios? Em que offendi a memoria de sua mãe? Essa é boa! Então dizer eu á filha do snr. D. Miguel e da snr.ª D. Marianna Rolim de Portugal que não se faça luveira, é offender a memoria de sua mãe! Ora, minha senhora, não nos entendemos! A menina é sabia, lê livros e casos romanticos;{66} e eu cá, a respeito de livros, basta-me a experiencia que não é máo livro, e o mundo que não tem pouco que ler... Emfim, minha menina, estou ás ordens de V. Ex.ª, e hei de amal-a sempre como filha, tanto me faz que seja luveira como rainha. Prometti a sua mãe, quando a fui encontrar nas agonias da morte, que, emquanto eu fosse viva, a menina, não passaria precisoens. E, se as não passou porque teve quem lhe désse uma mezada, tambem as não passaria, se nada tivesse de seu. Deus permitta que não; mas, se alguma, vez a snr.ª D. Maria José chegar á pobreza, ha de achar-me tão sincera amiga como fui e sou.

A menina, commovida e repêza da altivez, com que interrogára a amiga de sua mãe e sua gasalhosa hospedeira em annos perigosos, abraçou-a, pediu-lhe desculpa, e ao mesmo tempo protestou, soluçando, que não deixaria de soccorrer seu desvalido pae.

—Faz bem, faz bem, menina!—obtemperou Rozenda sensibilisada e, ao mesmo tempo, previdente.—Se seu pae voltasse ao throno...

—Nunca mais!—murmurou D. Maria com os braços pendidos e os dedos entrelaçados—nunca mais!

—Por que não?!—replicou a mãe do vidente, que assoprava á pira do fogo sacro no{67} escriptorio da Nação.—Tenha esperanças, menina! Meu filho diz que o snr. seu pae ha de vir, e ha de ser elle mesmo, o meu Victor, quem o ha de pôr no throno!

—O snr. Victor é poeta...—volveu D. Maria, sorrindo melancolicamente.—Cuida que as phrases inspiradas pela justiça fulminam as iniquidades dos homens. Engana-o a miragem do genio, que se julga omnipotente. Os raios do talento não são como os do céo que vão direitos aos durissimos brilhantes e os pulverisam. A sociedade sabe e a experiencia mostra que os coriscos, arremessados contra os poderosos, apagam-se quando o resplendor do ouro os deslumbra...