—Sempre é muito esperta!—interrompeu D. Rozenda ingenuamente admirada—A gente esquece-se a ouvil-a, minha senhora! Quantas vezes o deputado Elias me disse que a menina havia de ser uma grande capacidade! O meu Victor Hugo diz tambem que a snr.ª D. Maria José, se quizer, póde idear novellas. Porque não dá a menina alguma coisa á luz? Escreva um romance de amores...

—De amores!...—obstou, sorrindo, D. Maria—como hei de eu escrever do que não entendo?

—Não entende!?... Boa vae ella! O amor{68} não tem nada que entender. Quem ensinou os passarinhos a amar? não me dirá? A natureza tanto ensina os animaes como a gente. A menina, se não sabe, é porque não quer.

—Não posso, nem penso em tal. O amor só entra em coraçoens abertos ao contentamento. Alma em trevas não attrahe raios de luz tão intensos. O amor é como o sol que decerto não brilhará neste recinto, se eu conservar as janellas fechadas d'uma noite a outra noite.

—Ora deixe lá...—redarguiu em excellente prosa a quinhoeira do lyrismo do deputado Elias.—A snr.ª D. Maria José ha de pagar o tributo como as outras: se não fôr Sancho, será Martinho. O que a menina faz é o que eu tenho feito desde que enviuvei: não quer amar; isso lá percebo eu. Bem importunada tenho eu sido por pretendentes ás segundas nupcias, tantos como a praga dos gafanhotos do Egypto! Resisti e hei de resistir, porque jurei eterna fidelidade até á morte ao meu defunto Alves, apesar de elle me deixar pobre, sacrificando-me á politica cabralista. Lá se elle fosse esperto como o filho, ainda valia a pena deixar o negocio pela politica; mas, Deus o tenha á sua vista, aquelle perdeu-se por ser um toleirão! O meu Victor{69} Hugo sahiu ao avô cá pelo meu lado, que dizem que era muito sabio meu pae de Povolide. Todos me dizem que o rapaz ainda pode ser ministro. Eu não engulo carapêtas; mas, quando me lembro que o meu hospede Elias chegou a ministro, sendo elle bom homem, mas muito tapadinho, diga-se a verdade, não me admira nada que meu filho, cedo ou tarde, venha a subir ao governo. Se o snr. D. Miguel viesse, a menina pedia-lhe que désse uma pasta ao meu filho, não pedia?

—As mulheres, minha senhora, quer sejam princezas, quer sejam luveiras, não devem intrometter-se nos negocios do estado. Se meu pae tornasse a Portugal, dir-lhe-hia eu que o snr. Victor soffreu vinte dias de carcere por amor d'elle.

—E o mais que elle soffrerá ainda...—ampliou D. Rozenda.—Acho-o tão incanzinado no partido realista, que, qualquer hora, estoura trovoada peior, que a outra. Os fidalgos trazem-no nas palminhas, e eu vejo-me atrapalhada para o vestir com mais luxo, porque elle vae a todas as casas principaes, e não me falla senão na senhora marqueza d'Abrantes, na senhora condessa de Pombeiro, de Redondo, da Figueira, Barbacenas, Pancas, etc. E bem vê a menina que quem gira nesta roda{70} fina não se ha de ir vestir ao Nunes Algibebe por dez ou doze pintos. Deus sabe com que linhas cada qual se coze...

—Peço-lhe, minha amiga, que disponha do que é meu—disse a menina apertando-lhe a mão.

—Muito agradecida, minha senhora; por emquanto, cá me irei remindo, como puder. O que eu queria da minha menina para o meu apaixonado Victor, sabe o que era?—isto.

E, apontando-lhe ao coração, trejeitava com os olhos mui derramados e um pender de cabeça languescida—coisas e modos que muitas vezes deviam ter eschammejado vesuvios no deputado Elias e no conego Antunes.