—Sua mãe... é morta?

—Ha muitos annos...—balbuciou a condessa.

—Porque me não escrevia, quando me{217} enviava...—tornou elle, feita uma longa pausa.

—Oh!—atalhou D. Maria—peço-lhe que não se lembre... vossa magestade...

—Que me não lembre?... Eu não me esqueço senão dos ingratos... minha filha!...—E voltando-se para o conde:—sênte-se, senhor... Como se chama seu marido?—perguntou á condessa.

—Raul—respondeu ella.

—Sênte-se, snr. Raul... Sei que é brazileiro... Agradeço-lhe esta boa hora da minha vida—proseguiu tomando entre as suas a mão de Maria.—Mal diria eu!... Ella aqui está... aquella creança que eu via como um anjo lá ao longe da vida... um ponto branco e luminoso do passado... um sonho!...

D. Miguel alongou os olhos tristes para o horisonte azul que as montanhas recortavam. Que visão! que saudade! que escuridade ia dentro d'aquella alma, purificada na onda das lagrimas, na fragua da indigencia, no cadinho ardente do desesperar!

O conde, embevecido no aspecto respeitavel e triste d'aquellas cans geadas dos invernos de vinte e oito annos, escutava-o tão admirado, quanto em Portugal a opinião da plebe das letras malsinava de ignorancia o principe. D. Miguel interrogava, ora o conde,{218} ora a filha sobre coisas e pessoas da patria, alheando-se da politica, e instando a sua dolorosa curiosidade em miudezas de certos sitios, dourados pelo sol da infancia, e esmaltados de indeleveis côres pelo archanjo da saudade, que lá de longe nos segue até nos entregar ao archanjo da morte.

Quando um criado entrou á sala annunciando que a rainha se recolhera do banho, o infante disse ao conde: