—Minha mulher ha de querer cumprimental-os em occasião mais opportuna.
A condessa levantou-se, dobrou o joelho ao lado do esposo, beijaram as mãos do principe, que deu o braço á dama, até ajudal-a a subir ao estribo da carruagem.
Desde esta hora, raiou luz nova no espirito da condessa. As lagrimas do enthusiasmo filial diluiram a mancha negra que lhe ennoitecia, a intervallos, a razão. Se a causa d'aquelles crepusculos da escuridade da alma tinha sido julgar-se abatida pela calumnia aos olhos do marido, a cura operou-se pelo exalçamento que lhe dera a consideração do pae em presença do conde. Só assim: nenhuma outra ancora salvaria do golpho das trevas aquelle espirito. A ferida escalavrara o orgulho da neta de Affonso VI, por sua mãe e por seu pae.
Demorou n'aquella paragem o conde até{219} que D. Miguel recolheu a Heubach. Depois, deteve-se em Allemanha. Por espaço de anno, raros dias se não viram as duas familias. A felicidade de Maria José era o céo, como raras vezes a virtude n'este mundo o encontra, na consciencia, e nas alegrias inalteraveis da vida exterior.
O conde, adivinhando os discretos silencios da esposa, disse que nunca mais voltaria a Portugal. Projectou, pois, deter-se na Europa mais dois annos, e voltar para o Brazil, onde o chamavam as memorias da infancia, como quem queria continuar as doçuras da vida adulta e lá esperar a quietação da velhice.
N'este proposito ordenou ao seu procurador e mormente a Damião Ravasco a venda de todos os seus haveres em Lisboa, com ordem ao leal amigo de o ir encontrar a Marselha, levando comsigo Christovão Tavares e toda a familia do afortunado velho.
Quando Damião, grandemente desconsolado por ter de sahir de Portugal sem vingar o conde, obedecia ás ordens recebidas, foi colhido de sobresalto por uma noticia que, segundo elle affirmou, por pouco o não matava de prazer.
Christovão Tavares mostrou-lhe uma gazeta liberal em que o articulista, em polemica virolenta com o redactor d'outra gazeta, escrevia{220} estas lisonjas: «... Quem é este sevandija que nos falla em moralidade, em caracter, em firmeza de principios, em dignidade jornalistica? Quem é o gaiato, o fundibulario das esnogas d'Alfama, que nos despede a pedra, sem receio que o recochête lhe vá bater no stigma infamante da testa, onde a lei já não deixa escrever LADRÃO com ferro em braza? Quem é, e donde veio este Victor José Alves, que incravou no nome plebeu o «Hugo» tão honrado no mundo? Quem lhe disse a elle que onde estava o Alves, para memoria de um certo Diogo, devia intervir o sobrenome do primeiro poeta do universo?
«Victor Hugo! elle, o filho da estalajadeira, que ainda tem, como brazão de familia, atraz da porta o cacete do marido, que quiz mercadejar com as costas dos septembristas, como com os coiros de vacca onde se levantou subindo pela tripeça do pae!
«Victor Hugo! elle que imbaiu uma certa luveira a dar a D. Miguel uns tres contos de reis, que o escroc desbaratou em pasteis de camarão e orgias nos bordeis!