«Victor Hugo! elle que depois prefaciava um apontoado de injurias aleivosas que haviam matado a infeliz mãe da luveira roubada, e levaram depois ao cairel do sepulcro moral a razão de certa condessa, que hoje{221} erra foragida da patria em companhia de seu honrado marido!

«Elle, Victor Hugo, que apoz tantas protervias, umas culminantes de infamia, outras de irrisão, exerce hoje um logar de confiança politica, o secretariato d'um governo, e pendura na lapella da casaca, que devia ser blusa de forçado, duas commendas, uma que lhe dá o foro de fidalgo, e outra que o representa benemerito das consideraçoens litterarias!... Elle que...»

Damião Ravasco arrojou o jornal, e atirou-se aos braços de Tavares exclamando:

—É meu o homem! Se alguem lhe põe a mão, arranco-lhe os figados pela bocca!

E parecia jorrar ascuas de forja afogueada por ambos os olhos.{222}
{223}

[CONCLUSÃO]

É immolado um porco á terra.

HORACIO, Epist. I, Livro II.

Corria o mez de agosto de 1862.

Na estação de seges de praça, que descorrem pela cidade baixa, notaram os boleeiros a concorrencia de um mulato, que elles tinham visto, adestrando as soberbas parelhas do conde de Baldaque, ou aderençando pôtros rebelloens e alfarios com a galhardia de consummado picador. Reputavam-no mordomo do millionario; porém, quando o viram na praça, boleando uma sege numerada, inquiriram d'elle mesmo se deixára o serviço do conde. E elle respondeu:

—O conde foi-se embora para França, e eu, que me dou bem por cá, empreguei as minhas soldadas n'este trem, e vou vivendo.{224}