—Sou, se me tu disseres onde está o marido. Tu cuidas que em Lisboa é coisa notoria a chegada do morgado de Palmeira!
—Ora não faças a terra maior do que ella é;—replicou Raphael.—Eu cheguei hontem á noite, e, meia hora depois, sem sair do quarto, sabia onde morava madame Margarida Froment.
—É que as francezas bonitas dão mais nos olhos dos lisboetas, que os morgados de Traz-os-Montes.
—De accordo; mas achas difficil saber-se onde está o Mesquita?
Se não se hospedasse em casa de parentes, é facil pela relação policial das hospedarias.
—Cuida-me disso, e fallemos agora de ti. És feliz, rapaz?
—Sou.
—Dois annos! uma mulher dois annos!... Tu achaste a coisa que os poetas andam a sonhar ha seis mil annos! Dois annos de felicidade com a mesmissima e identica creatura!... Que segredos tem ella? Belleza offuscante, e espirito de endoidecer a gente, não é? Responde alguma coisa, homem!... Parece-me que te vejo no castello d’Aguiar a fazer a côrte por um oculo de vista larga a uma pastorinha, que lavava os pés no regato!... Aposto que ainda te não desbarataste!
—Ainda não; mas fiz coisa peior: desbaratei o melhor da minha casa.
—Já sei: isso consta ha muito por lá... As tias Almeidas e o capellão choram por toda a parte os teus desperdicios. Então estás pobre? queres dinheiro?