O amor subtilisara-lhe a esperteza. Desconfiou que Nicoláo, alvorotado pelo esmerado trajar d’aquelle dia, de qualquer angulo da rua a estaria espionando. A suspeita era acertada. O criado de Raphael vira o morgado da Palmeira, encoberto pelos cunhaes das casas esquinadas, a espreitar as janellas do hotel.

Á noite, Raphael Garção foi encerrar-se no seu quarto do hotel de Italia, onde era conhecido pelo nome do seu criado, que tirára passaporte em Hespanha. Raras vezes um espirito leviano prevê tão miudamente as superveniencias nocivas ao bom exito de uma empreza! Cada Fausto acareia as simpathias de um diabo invisivel, que o aconselha, até á hora definitiva em que lhe toma conta da alma, se é que uma alma, infernada por mulheres, póde servir de pasto aos griphos das alimarias do reino escuro.

Encontrou Raphael o primo Almeida, que o esperava sobremodo attribulado.

—Que tens tu? perguntou o de Fayões. Foi a franceza que te deu tratos de polé! Aposto!

—Coisa peior.

—Fugiu-te?!

—Não: surprehendi na algibeira d’um criado uma carta para ella do Mesquita. Facilmente se conhece que Margarida o auctorisou a escrever-lhe, respondendo á primeira que recebeu. Apresentei a carta á franceza, e ella, a infame, leu-a placidamente, e disse: «Sem contradicção, esta carta é para mim.»

—E tu mataste-a?

—Zombas com a suprema desgraça, Raphael?

—Não: congratulo-me com a suprema felicidade! Despediste-a?