—Pedi-lhe eu que ficasse, emquanto o coração a não impellisse a outro homem.
—E ella ficou? Não sei qual dos dois é mais admiravel! Vocês devem ter um pelo outro a maior desconsideração!... Está claro que te não podes arrancar da mulher...
—Eu não sei o que está claro.—disse Ricardo de Almeida.—Escura sei eu que está a minha alma como as trevas dos condemnados. Eu saí de casa allucinado, e procurei-te para te contar a minha deliberação: como te não encontrei, nem te quiz procurar na rua dos Romulares, desisti do teu parecer, e mandei desafiar Nicoláo de Mesquita. Ámanhã ás onze horas é procurado pelos padrinhos.
—Então é certo que endoudeceste?—exclamou Raphael Garção.—Em primeiro logar, a mulher por quem te bates, se o duello fosse uma coisa elevada e seria, baixava-o á infima irrisão. Em segundo logar, Nicoláo de Mesquita não se bate, e humilha-te, respondendo que as Margaridas Froments tão sómente merecem paladinos, que se desafiem a vêr quem gasta mais com ellas. Em terceiro logar, quando te batesses... Que armas jogas? Ha dois annos não jogavas nenhuma...
—Nem hoje.
—Pois então, Deus haja misericordia da tua alma, porque Nicoláo de Mesquita é professor em todas as armas, sem excepção de côr ou feitio! Ahi vaes tu offerecer o peito ao estoque ou á bala, tu, Ricardo de Almeida, um rapaz de futuro, um dos mais estimaveis e nobres moços da provincia! E assim te deixas morrer irrisoriamente por amor ou desprezo—não sei o que é—de uma mulher despejada, que te abandonou! Abre a tua alma a um raio de luz, desgraçado! Crava as proprias unhas no coração ou na cabeça, e arranca de lá essa ignominia, que te sacrifica a uma coisa que não póde ser amor!... Tu vaes d’aqui procurar os padrinhos, e retirar a proposta. Depois, vens residir n’este hotel, e desimpedir a porta de tua casa para que a franceza saia livremente sem as angustias da despedida. O dever, a dignidade é isto!
—Tenho vergonha de retirar a proposta—replicou Almeida.—Em Lisboa um caso d’estes é a perda irreparavel da reputação.
—Da valentia!
—Da honra.
—Então é a honra convencional que te move, já não é o ultraje...