—É tudo. Não desisto... Emquanto a morrer, sinceramente, com todas as veras de minha alma te digo que me não importa. Antecipo um acabar mais obscuro... porque eu, em me vendo pobre, já te disse que me suicido... Além de pobre, desprezado d’esta mulher, que nem o coração me deixou...
—Tens ainda um grande coração, porque podes chorar, meu rico Ricardo—atalhou Raphael abraçando-o.—De hoje em deante és meu irmão! Hei de disputar-te ao diabo e vencerei!
XVI
Ás onze horas do dia immediato, um criado do hotel apresentou a Nicoláo de Mesquita dois bilhetes de uns sujeitos que esperavam na sala. Eram nomes de tomo na velha fidalguia d’estes reinos.
Desceu o morgado da Palmeira á sala. Um dos cavalheiros com a graça amavel e affectuosa de quem vae convidar um amigo para um alegre festim, disse que elle e o seu amigo D. Fulano de tal haviam sido encarregados pelo primo Ricardo de Almeida de fazerem expressa ao excellentissimo Nicoláo de Mesquita, cavalheiro que elles propoentes conheciam de nome, e de mui illustre parentella em Lisboa, a sua resolução de pleitear com as armas no campo da honra o direito de repellir uma affronta.
—Affronta, ajuntou Mesquita, que vossas excellencias terão a bondade summa de nomear.
—Cartas escriptas a uma dama, que vive em companhia do cavalheiro offendido, madame Margarida Froment.
—A dama de que se trata, disse o morgado, é uma mulher que eu sustentava minha amante, estabelecida em residencia minha no Porto, no dia 26 de outubro de 1839, ás tres horas da tarde; e ás quatro horas, pouco mais ou menos, d’esse dia, e anno, o senhor Ricardo de Almeida senhoreou-se d’ella. Qual dos dois entendem vossas excellencias que foi o affrontado?
—Não viemos munidos de instrucções para responder a vossa excellencia.