—Nenhum...

—Acredito-a, Beatriz. Pois saiba que ha-de ser venturosa, quanto os anjos podem ser n’este mundo. Hei de obrigal-a com extremos de amor a ser minha amiga. Vêr-me-ha invelhecer, e então sentirá por mim affecto de filha. O homem, na minha edade, sabe como se faz a felicidade de uma mulher. Entrego-lhe o coração maculado, mas ainda forte de vida, a vida do coração, que é a poesia das almas enthusiastas. Se eu me sentisse gasto e insensivel, a prima Beatriz, com o segredo que teve de influir um sagrado fogo no gelo da minha vida moral, havia de fazer o menor milagre de remoçar-me. Será feliz, minha prima: juro-lh’o, beijando-lhe esta mão pura!

Beatriz cedeu facilmente a mão, para não prejudicar o ritual do juramento.

Se Deus fosse carne, e tivesse labios susceptiveis de obedecerem ás contracções convulsas dos musculos faciaes, ria-se sardonicamente d’aquelle juramento.

O lance, digno de ser pintado com as branduras de Bernardin de S. Pierre, foi interrompido por um criado, que apresentava a Nicoláo de Mesquita uma carta, vinda em mão propria, de Villa Pouca de Aguiar, distante de Chaves tres ou quatro leguas.

O morgado viu o sobrescripto, e mudou de côr.

Era a lettra de Margarida Froment, que havia chegado a Villa Pouca na tarde do dia anterior.

O contheudo eram duas palavras: ESTOU AQUI.

Beatriz ergueu-se em ponta de pés. Adoravel curiosidade! Viu; mas não entendeu. Era em francez. Encarou no primo e disse sobresaltada:

—Que é?!