—É uma espera de assassinos?—exclamou Raphael, abocando a pistola ao peito do tio.

—Como quizeres, canalha! Vaes agora morrer tu, ás mãos de um velho, que deshonraste. Desfecha, corôa a tua vida com o homicidio! Mata quem te vae varar esse perverso coração!... O pae de Beatriz deve morrer ás tuas mãos!

Raphael abaixou a arma apontada, e disse:

—Atire! aqui me tem mais perto!...

E impelliu a trancos o cavallo para a frente, e quasi ao alcance do braço de Martinho.

O velho retirou o dedo convulso, que premia o gatilho.

—Antes quer que os seus criados me assassinem?—exclamou Raphael.—Pois então que atirem elles! Um homem innocente está alli morto no chão; matem agora o criminoso; desculpem-se de uma barbaridade com um acto de justiça. Salvem a honra de seu amo, que o sangue do meu criado não lhe póde lavar as nodoas!

Martinho Xavier fraquejara. Aquelle silencio era uma estrangulação que lhe afogava na garganta a voz. Contara comsigo para uma desaffronta, que, nas cogitações do seu quarto, lhe parecêra heroica. A presença do cadaver, e o animo frio de Raphael conturbaram-n’o.

—A deshonra de minha filha!...—balbuciou elle. E as lagrimas romperam-lhe em torrentes, e a pistola caiu-lhe da mão.—A minha amada filha... prostituida... por um sobrinho de seu pae... pelo companheiro da sua infancia, que eu tinha em meus braços, quando ambos se beijavam... E pudeste, Raphael, tu, pudeste perdel-a, quando devias guardar a dignidade dos teus, respeitar a esposa de um amigo, a filha de um velho, que te estremecêra como pae... Tu, filho de uma irmã de minha mulher!... Maldito sejas!... Deus não quer que eu possa castigar-te... Divina Providencia, eu vos entrego este criminoso!... Castigae-o vós!

Martinho Xavier desandou o cavallo, e partiu vagarosamente. Carecia de forças, para accelerar a carreira.