Raphael desmontou, ergueu pelos hombros o criado, quiz acostal-o á riba da estrada; mas o corpo inerte resvalava com a cabeça pendida, e os braços desarticulados. O collete e a camisa fumegavam ainda queimados pelas buchas dos bacamartes. O morgado tirou as mãos ensanguentadas; e desistiu de esperar signal de vida.

Voltou a Fayões a chamar criados com uma maca de carregar. Transportou-o a casa, e não deixou que fosse avisada a justiça. Amortalhou-o e depositou-o na capella do palacete. Foi suffragado com a decencia das pessoas da sua familia, e distinctamente sepultado ao pé do jazigo dos Cogominhos Garções.

Quinze dias depois d’este successo, Martinho Xavier enfermou gravemente, e prohibiu que Beatriz fosse avisada. Sem embargo, chegou a Palmeira a nova da perigosa doença do fidalgo. Nicoláo de Mesquita, sopesando o despeito, foi com a esposa e o filho a Chaves.

Era irrecusavel o accesso ao quarto do enfermo. Sentou-se com transporte de ira o velho, quando viu a filha. Contemplou-a com os olhos arraiados, e acovados nas orbitas azues. Apontou-a com o braço tremente e murmurou:

—O crime!... a lividez patibular do crime!... A maceração da consciencia no rosto que foi tão bello!... Vae-te, amaldiçoada!... Olha que pesa sobre ti uma vida innocente, que eu fiz matar!

Nicoláo, que se detivera consultando os medicos, acudiu aos brados roucos de Martinho, e viu sua mulher ajoelhada aos pés do leito, e lavada em lagrimas.

Assim que o intreviu no reposteiro, o velho carregou a fronte, e bradou:

—Quem te chamou aqui, devasso? Vae para as vergonhosas delicias da mulher, que achaste mais digna quando era mais perdida. Vae cumprir a tua expiação, e não venhas ser testemunha da minha. Dei-te essa desgraçada, que ahi está, cuidando que a guardarias no santuario de um amor digno. Não podeste, porque vinhas do crime sordido, havias de voltar ao mesmo abysmo, e arrastal-a comtigo! Vão-se ambos da minha presença, e... despedacem-se!

Nicoláo estava corrido na presença das pessoas que o acompanharam ao quarto. Retrocedeu taciturno, perguntando aos medicos se seu sogro estava doudo. Os medicos, suspeitosos da justa supposição do morgado, entraram ao quarto a examinar-lhe os olhos e os movimentos. Martinho compreendeu-os, e disse placidamente:

—Eu não estou doudo, meus amigos. Escusam de examinar-me. Se vêm lagrimas, são de desgraça, e não de demencia. Peço-lhes o favor de me deixarem repousar... E, se ahi está alguma senhora, queiram pedir-lhe que venha transportar d’ahi essa creatura.