O criado foi de Fayões ao Valle d’Aguiar. O morgado estava em casa de Ricardo. Aqui recebeu a carta, e respondeu que ás onze horas da seguinte noite estaria em Palmeira. Beatriz, precavida pelas desconfianças do marido, mandou secretamente indagar, se elle estava na quinta de Valdez. Soube que d’ali, onde descançára uma hora, se encaminhára de noite á Ribeira d’Oura. Beatriz exultou ainda. Margarida Froment abonava-lhe a segurança de uma longa entrevista.

O dia seguinte fôra tumultuoso em duas aldeias proximas do Vidago, entre as quaes estava situada a casa de Palmeira. Os malhadores de duas casas, enrixadas desde muito, haviam-se travado na vespera, ao encontrarem-se as respectivas esturdias ou festas de cada malhada. As rebecas, violas, clarinetes e bombos, de parte a parte, ficaram pedaços no campo da sanguinolenta briga. Os dois mais valentes jogadores de pau tinham mordido a poeira, deslombados pelos formidaveis manguaes, cuja pancada é mortal.

Os sinos das duas freguezias tangeram a rebate, e os moradores sairam armados a guardarem as raias do seu territorio.

O dia immediato era santificado, e, na capelinha do cume da serra, havia romagem. Esperava-se alli desordem que se avantajou á espectativa.

As espingardas retroaram toda a tarde, na quebrada das duas serras sotopostas á chã da romaria. Alguns bravos tinham por lá expedido a alma entre as urzes dos matagaes. Os vencedores perseguiram os vencidos até ás raias da sua freguezia, e ahi, desde o lusco fusco, ficaram atalaias até alta noite.

Raphael saira ao fim da tarde do dia anterior, caminho de Fayões. Amelia chorara ao despedir-se d’elle. Laura quizera demovel-o da partida, sem perceber o intento. Ricardo pedira-lhe que escrevesse a Beatriz, contando-lhe a morte do seu criado, o dialogo com Martinho Xavier e a absoluta necessidade de acabarem ou espaçarem-se os seus perigosos encontros.

—Tudo lhe direi em viva voz—continuou Raphael Garção.—Não ir é fraqueza e desdouro, sobre ser crueza. Esta mulher, que assim escreve, é desgraçadissima.

—Melhoras a situação d’ella?—replicou Ricardo.

—Convencel-a-hei a conformar-se. E aqui te dou a minha palavra de honra que ámanhã terminam as nossas relações. Falla muito em mim a tua cunhada que eu amo deveras.

Foi Raphael a casa no intuito de armar dois criados de provada coragem, e cingir ao pulso uma manilha de ouro com um retrato de Beatriz. Esta prenda lhe déra a prima em Lisboa. O retrato, copiado de outro, que Nicoláo de Mesquita lhe mandára tirar, era em marfim, admiravelmente perfeito. Na manilha, em cuja rosca interior estava o cabello de Beatriz, mandára Raphael abrir as iniciaes de ambos, e gravar a data d’aquella noite de embriaguez de cabeça e coração. Jurára elle morrer com a manilha no braço; e, bem que violasse o juramento, depondo-a como incommoda, e reparavel á cunhada de Ricardo, não quiz apparecer a Beatriz sem ella.