Apeou á porta da estalagem.

A franceza esperou-o no topo da escada, abrindo os braços. Nicoláo apertou-lhe a mão, e disse-lhe glacialmente:

—Que é isto?

Margarida transfigurou-se. Deixou cair mortalmente os braços, e disse então dorida e irritada:

—Para que veio aqui?

—Pois a tua carta que significa? Diz.

—Nada. Respondesse: «Não conheço a desgraçada, a perdida, a infame que me escreve. Desgracei-a eu, perdi-a eu, infamei-a eu; mas não a conheço.» Respondesse assim, senhor Nicoláo de Mesquita. Antes isto, que repellir a mulher que de braços abertos lhe offerece o coração traspassado de dôres.

—Vem cá, Margarida! tornou o morgado, simulando meiguice. Vem conversar commigo. Tu és injusta, ou estás enganada.

A franceza abriu a porta do seu quarto. Nicoláo sentou-se a limpar as bagas de suor. E ella ficou em pé defronte d’elle, hirta, sublime, formosa, e formidavel de odio, de amor, de desesperação, de ternura, um indefinivel conjuncto de demonio da soberba, e anjo da agonia.

E elle estava como se a não visse, fitando-a nos olhos coruscantes. Latejavam-lhe as fontes batidas de dentro por clavas de ferro. Seria um atroz pezadelo, se não fosse um abafar de vergonha e rancor.