—Morto!...—balbuciou elle—Adeus!...

E remexeu-se no vasquejar da suprema agonia.

—Uma luz!... bradou ainda Beatriz.

A criada corrêra a casa, e saira logo com uma vela.

Quando entrou na mina, viu sua ama prostrada sobre o cadaver, e a face ensanguentada, por havel-a roçado ao cair, nas pedras esquinadas que saiam das paredes do aqueducto!

XXIII

Saiu a criada á bocca da mina, no desvariado intento de chamar quem levasse d’ali a fidalga.

Suspendeu-a a lembrança de fazer publica a desgraça de sua ama. Voltou com a vela, que lhe caiu das mãos convulsas, e se apagou. Aterrada e cega nas trevas, invocou a Santa Virgem, e pediu logo perdão da parte intermediaria que lhe fizeram tomar, desde Lisboa, n’estes desventurados amores; tinha sido ama do menino esta criada, que se affeiçoara, como usam affeiçoar-se estas mulheres a suas senhoras. Não obstante, em conflicto de tanta angustia, a sua idéa, quando se viu no escuro, foi fugir da terra, e mudar para outra onde a não conhecessem. N’esta perplexidade, ouvia gemer sua ama, e proferir expressões n’uma toada medonha.

Avisinhou-se ás apalpadelas, e tirou por ella de sobre o cadaver; mas os braços de Beatriz estavam empedernidos ás ilhargas do morto. Chamou-a, agitou-a, sacudiu-lhe a face: baldaram-se vozes e esforços. Cresceu o terror da mulher: decidiu-se pela fuga, sem já dar tento, nem importar-se da crueldade e desamor do acto. Foi ao seu quarto, embolçou os valores que tinha; e, tirante esta ultima prova de bom senso, no mais parecia doida a correr por aquella estrada fóra sem destino.