Por volta de uma hora da manhã, Beatriz espertou da lethargia, e sacudiu os membros para espancar a visão horrenda, o sonho de se estar abraçada no cadaver do amante. A visão teimava em atirar-lhe ao seio o corpo glacial de um morto, e ella esfregava as palpebras, e arrefecia as mãos na testa.

—Que horror de sonho!...—exclamava suffocada—e, apalpando as costas de Raphael, continuava a dizer em sua alma:—Parece que o sinto debaixo das mãos!... Que horror, Virgem Santissima!...

Bracejou, e deu com os braços nas paredes humidas da mina. Então é que foi o supplicio indescriptivel do completo despertar. Ergueu-se de salto. Vibrou um agudissimo grito. Rojou-se ao longo do cadaver com frenetica ternura. Beijou-lhe o perfil do rosto: levantou para si a cabeça como hirta; apertou-a convulsamente á face d’ella; correu-lhe a mão pelo seio, e ensopou-a em bulhões de sangue, ainda quente. Refugiu, levantou-se, bateu com a face nas asperezas da saibrada angulosa de seixos, gritou por luz, chamou a criada, e correu ao longo da mina de encontro ao clarão da abertura. Quando saiu de rosto ao ar livre, e se viu sósinha, e não soube compreender que profundezas de abysmo eram aquellas; e que circo de chammas havia de abranger-lhe o espirito; e que infanda agonia se passava debaixo dos olhos do Senhor... a perdida, a torturada por tormentos, não sabidos de nome n’este mundo, caiu, a poucos passos da mina, caiu como pregada em terra pela flecha de um raio.

Ás trez horas, rompia a manhã. Uns carreteiros, que passavam, ergueram aquella mulher, envolta n’um manto branco, ferretado de sangue.

Reconheceram a fidalga, e chamaram a grandes brados os servos da casa. Acudiram todos, e levaram em braços Beatriz.

No mesmo ponto, saiu um criado para Valdez, e outro para a Ribeira d’Oura a chamar Nicoláo de Mesquita. Estendeu-se uma rede de homens a procurarem não sabiam elles quem; viam a fidalga ensanguentada, e julgaram-n’a ferida. As criadas examinaram-n’a, e apenas lhe viram o rosto escalavrado. Vieram cirurgiões, e decidiram que os ferimentos visiveis, a não existirem outros, eram resultantes de uma queda com o rosto sobre a pedra.

O sangue das mãos entenderam que rebentára da face, quando ella se apalpou.

Beatriz abriu os olhos, na presença de muitas pessoas circumpostas ao leito. Despediu gritos consecutivos, sem intermissão de socego. Rasgou as vestes interiores, e as faces de quem lhe retinha os braços. Cessou de gritar, e interrogava os espavoridos circumstantes, perguntando quem matára Raphael Garção. Os ouvintes encaravam-se e não respondiam. Embravecida pelo silencio, a esposa de Nicoláo de Mesquita atirava-se do leito fóra, arrepelando-se, e lacerando as macerações e feridas do rosto com as unhas. Tingiu-se-lhe de um escarlate de fogo a cara e testa. Relumbravam-lhe os olhos. O arquejar do peito resoava como em paroxismos.

A congestão cerebral declarou-se. Soccorreram-se das copiosas sangrias os facultativos; porém, no momento em que o intenso afogo do rosto parecia esfriar, Beatriz abriu os olhos, encontrou os do filho que chorava, sacudiu os braços com vibrações de metal electrisado, e caiu a um lado sobre o seio do cirurgião, que a relancetava.

Nem um monosillabo! Nem o nome do filho! Nem o nome do amante!...