«Ao mesmo tempo... (muito me custa ter de escrever os nomes de pessoas que figuram ou figuraram n’este drama; porém, sacrificando á verdade, e desejando que na minha narrativa ninguem veja um romance, sou forçado a não esconder nenhuma das luzes que alumiam este acontecimento tenebroso). Ao mesmo tempo, D. Beatriz de Sousa, mulher do morgado da Palmeira do Vidago, Nicoláo de Mesquita, morria, segundo disseram os facultativos, de uma congestão cerebral, ou febre thraumatica, consecutiva a ferimentos na face.

«No dia seguinte, os criados de Raphael Garção procuraram seu amo na quinta de Palmeira, para onde elle viéra de noite e furtivamente. Os criados, interrogados pelo marido da senhora morta, confessaram a intenção que os levava alli, e foram despedidos.

«A voz publica francamente disse que o morgado de Fayões morrêra ás mãos do marido de sua prima Beatriz, ou por ordem d’elle; e que a esposa, suspeita de deslealdade, se não perecêra no mesmo ponto, succumbira depois dos flagicios bem claramente denunciados nas contusões da face.

«A ausencia do morgado da Palmeira, na noite em que estes factos se deram, confirmava desconfianças sobre as probabilidades da astucia com que o senhor da casa, praticado ou mandado praticar o crime, se fingia distante do local. Como quer que fosse, do cadaver de Raphael Garção nenhuns indicios alcançaram as pesquizas da justiça, e sobre o cadaver de Beatriz de Souza nenhum exame se fez. O provavel e quasi evidenciado é que ambos estavam mortos.

«Passados sete ou oito mezes, o morgado da Palmeira foi para Londres, em demanda do filho, que o avô, nobilissimo cavalheiro de Chaves, lhe arrebatára. Decorridos dois annos, voltou para Portugal Nicoláo de Mesquita, e o filho, a tomar conta dos grandes haveres do sogro, que falleceu em Londres.

«No principio do corrente anno, quando a memoria da obscura tragedia estava delida no impersistente espirito do publico, quiz a Providencia que o morgado da Palmeira, com a sua propria mão, fosse apontar o infallivel testemunho do seu crime. É bem certo, segundo a phrase da Escriptura, que Deus enlouquece aquelles que quer perder!

«Os operarios, que por ordem de Mesquita desempedravam a porta de um aqueducto, que estivera aberto quatro annos antes, e se fechára dois dias depois da morte de Beatriz de Sousa, encontraram a quinze passos distantes da abertura da mina um esqueleto.

«Os ossos não tinham já fibra de carne adherente, conforme ouvi aos facultativos examinadores. As cartilagens e ligamentos, com quanto articulassem a ossada, principiavam a esphacelar-se, e muitos se desfibraram ao contacto do ar. O esqueleto estava de bruços; e cingida á volta do radio e cubito, ossos correspondentes ao ante-braço, tinha uma especie de pulseira, chamada manilha, com um retrato pendente, perfeitamente conservado no marfim, encastoada em oiro, com o rosto de esmalte, no reverso do qual se lê uma data, e as iniciaes enlaçadas de Raphael Garção e Beatriz de Sousa.

«Quando os jornaleiros descobriram o esqueleto, estava Nicoláo de Mesquita em Chaves. Os mineiros fugiram espavoridos, e foram contar o succedido ao regedor. Este mandou guardar por cabos de policia o aqueducto, e officiou á auctoridade. O aviso chegou simultaneamente ao morgado, que partiu para Palmeira.

«A auctoridade, chegada ao mesmo tempo, consentiu que Nicoláo de Mesquita penetrasse no aqueducto com uma lampada, visto que sem o exame dos peritos não se podia levantar o esqueleto, em conformidade com as ordens do morgado.