«O regedor, que seguiu Nicoláo de Mesquita, observou com grande assombro, um acto de extraordinaria ferocidade; e foi que o morgado depois de examinar a manilha pendente do pulso do esqueleto, fez um gesto de raiva frenetica: e, com um pé assentado em cheio no arcaboiço das costellas, fez que debaixo rangessem e estalassem os ossos do peito e costas. O regedor conteve-o de espalhar a ossada a pontapés, com risco de ser espancado pelo furioso dentro da mina.
«As auctoridades, depois do exame, tomaram conta da ossada, para continuação de averiguações.
«Sr. redactor, como se vê, o indicio de um assassinio está manifesto a todas as luzes; mas o indigitado homicida, porque é fidalgo e opulento, está no liberrimo goso dos seus direitos civis. Se fosse um pobre, já estava preso, e teria sido interrogado em casa de Anaz, e Caifaz, e Pilatos.
«Alguem saiu já em defeza de Nicoláo de Mesquita, allegando que elle, se fosse o assassino, de modo nenhum mandaria bolir no aqueducto. Esta razão tem uma face acceitavel, e outra incumbe á justiça mostral-a. Em quanto a mim e á maioria dos pareceres, o matador de Raphael Garção, cujos olhos são indubitavelmente aquelles, foi Nicoláo de Mesquita, vigesimo segundo senhor da Torre e morgado de Palmeira de Vidago.
«Conte com a noticia circumstanciada d’este processo, e com a verdade incorruptivel, do seu constante leitor,
«EPAMINONDAS TEBANO.»
—O que ahi está é tudo mentira! exclamou uma voz d’entre as pessoas, que escutavam a leitura da correspondencia.
Confluiram todas as vistas para a pessoa que bradara, e viram a criada da casa, Maria Joanna, que deixara cair o fuso, e com a mão levantada repetia:
—Juro pela salvação da minha alma, que o senhor morgado da Palmeira não matou o senhor Raphael.
—Como sabes tu isso?! perguntou o patrão.