—Sei-o, porque era criada da senhora D. Beatriz; fui eu quem creou o menino de que ahi se falla na gazeta. Assisti ao ultimo arranco do senhor Raphael. E, se até agora me calei, é porque não soube que o meu amo pagava innocente.

—Conta o que sabes, Maria, e prepara-te para ir esclarecer a justiça, voltou o patrão.

A antiga confidente de Beatriz relatou as desgraças de sua ama e do assassinado amante d’ella.

No dia seguinte, partiu para Chaves, com recommendações do cavalheiro de Villa Real, e foi levada á presença da auctoridade, deante de quem e de testemunhas, expoz o modo como Raphael Garção fôra encontrado, e a supposição de que elle fôra morto por uns homens que dispararam as armas para dentro da mina. Era preciso ouvir o depoimento dos homens. Maria Joanna indicou dois criados de Palmeira para dizerem quem eram elles, por terem estado, poucos momentos antes, conversando juntos. Os criados ainda o eram de Nicoláo de Mesquita. Foram citados a comparecerem na policia; e, interrogados, lembraram-se dos nomes dos quatro valentões da sanguinaria romaria. Os indicados depuzeram conformemente ao depoimento da creadora de Martinho, e as suspeitas declinaram de sobre a cabeça de Nicoláo de Mesquita.

O cavalheiro de Villa Real, volvidas duas semanas, leu uma segunda correspondencia do Epaminondas, antipoda involuntario do Epaminondas de Tebas, na qual as suas conjecturas eram rectificadas, com grande magua de as haver estampado no primeiro afôgo da sua indignação. A indignação dos correspondentes da provincia é coisa de grão pavor quasi sempre!

A correspondencia rematava assim:

«Os ossos de Raphael Garção foram religiosa e pomposamente conduzidos de Chaves para Fayões, e depostos no jazigo de seus avós. O pae de Raphael, que ainda vive doido, na escuridade do seu quarto, onde apenas recebe á força quem lhe ministra o sustento de tão horrivel viver, morrerá sem saber que os ossos do seu filho unico repousam na mesma sepultura da mãe, que morreu saudosa d’elle. A criada Maria Joanna salvou o morgado de Palmeira de um injusto ferrete: não obstante, o marido de Beatriz, com justa ou injusta razão (não ouso decidir-me) não consente esta mulher deante dos seus olhos. Consta-me que lhe mandara entregar as suas caixas, que ainda estavam em Palmeira, e uma esmola valiosa por mão do menino que se creou aos peitos d’ella.

«Finalmente, senhor redactor, em vista do desenlace d’esta infanda historia, devemos olhar ao ceu, e baixar os olhos confundidos, deante da mysteriosa justiça da divina providencia! Raphael Garção morreu. Beatriz viu-o agonisar. Ambos expiraram no praso de vinte e quatro horas. Nicoláo de Mesquita geme ha quatro annos sob o peso de uma cruz de ferro. Estas angustias pode ser que correspondam a antigos crimes. Em summa, ninguem se transvie do caminho da virtude, que o do crime está ladeado de infernaes abysmos.

«EPAMINONDAS.»

XXVII