Nicoláo de Mesquita, em 1850, voltou para Inglaterra com o seu filho, a residir no cottage de seu sogro. O menino, aos sete annos, entrou em collegio, e passava os dias feriados com seu pae.
N’uma estação de ferias, o morgado saiu com o filho a passar uns dias em Pariz, em companhia de uma familia ingleza, proprietaria da residencia em que fallecera Martinho Xavier, e a quem Nicoláo devia o obsequioso cuidado de attentar nas necessidades do filho sem mãe e sem carinhos de mulher, aos quaes se aquece o coração das creanças, e as virtudes fermentam n’elle. O aspecto macilento e sempre sombrio do portuguez acareára a discreta piedade da familia ingleza.
Adivinhavam n’elle um desmarcado infeliz, talvez um delinquente: mas, o remorso ou pena immerecida, o que elle inspirava nas almas contemplativas era compaixão.
Estavam, pois, em Pariz, no anno de 1852, quando Nicoláo, ao sair da egreja de Notre-Dame, onde fôra ouvir prégar Lacordaire, ouviu entre a multidão uma voz muito proxima do ouvido, que lhe dizia:
—Nicoláo de Mesquita.
Olhou de golpe, e viu Margarida Froment. Estremeceu. Aquella mulher devia ter quarenta annos; a decadencia era justificada; mas a velhice, quasi repellente, não.
—Custa-me a reconhecel-a, madame!—disse Nicoláo com os olhos afogados em lagrimas.
A franceza deteve-se entalada pela angustia da humilhação, e disse:
—Não venho pedir-lhe nada: quiz que me visse. Reduziu-me a isto, senhor Mesquita.