—Eu!... santo Deus!—atalhou Nicoláo enxugando as lagrimas.

—Aqui tem a Margarida Froment de 1834—proseguiu ella.—Casualmente nos achamos á porta do templo em que ambos saltámos da carruagem de meu marido para visitarmos as antiguidades d’esta egreja. Recorde-se da mulher de então: sou eu. É esta Margarida que empenhou hontem o seu melhor vestido para ter hoje um almoço. Já lhe disse que não venho pedir nada; quero que me veja.

—Mas a senhora attribula-me horrivelmente!—exclamou Nicoláo entalado de gemidos.—Não foi Margarida quem abandonou a casa de que era senhora? Expulsei-a eu?

—Não lhe respondo, senhor Mesquita. Olhe de cima do despenhadeiro onde me poz, e pergunte á Providencia por que estou aqui, porque sou isto que vê!

—Pois que hei de eu fazer-lhe agora, senhora! Que quer de mim? Eu sou muito desgraçado; mas sou rico ainda. Quer recursos para viver decentemente? Diga sem repugnancia.

—Não, senhor; nada lhe pedi: quero que me veja!

—Mas, infeliz, que vida foi a sua que...?

—A minha vida é isto!—interrompeu Margarida com vehemencia.—Perguntei-lhe eu que vida era a sua? Leio-lh’a no rosto. A minha historia aqui está tambem escripta na cara de Margarida Froment de 1834. Eu tinha então vinte annos, vinte mil libras para gastar cada anno, e o respeito do mundo, o amor de meu marido, que reduzi á libertinagem extrema para me esquecer, e á derradeira indigencia para com o tinido do oiro ensurdecer-se ao grito da infamia, que lhe deixei perpetuamente nos ouvidos. Póde ser que Ernesto Froment ainda lhe peça uma esmola, senhor Mesquita. Dê-lh’a, que o desgraçado não saberá quem lh’a dá. Dê-lhe a elle a esmola que eu rejeito, porque o hospital reserva-me duas taboas, e a pedra da mesa anatomica um funeral condigno.

Nicoláo soluçava; Margarida bateu-lhe no hombro, e exclamou surdamente:

—Viu-me? Agora... adeus!