Beatriz calou-se. Vinha entrando o marido com uma enorme pêra de sete cotovellos.
—Veja que prodigiosa pêra, primo Xavier! disse elle.
—É admiravel!
—Tenho magnificas fructas! Mandei fazer enxertos de pereiras francezas. D’aqui a dois annos o pomar mais rico de Traz-os-Montes ha de ser o nosso. Tu verás, Beatriz! Em França ha, no genero pêra, duzentas e tantas variedades.
—Porque não vaes mostrar Paris a tua prima? atalhou Martinho.
—Ora essa!—acudiu Nicoláo.—Se deixavamos a nossa casa para ir ver as paredes das casas dos outros!... Beatriz está farta de ver Paris nas estampas, que eu lhe explico perfeitamente. Pois toda a terra é mais para se ver na copia que no original!
—Ao menos vae até Lisboa ver a parentella que lá temos—replicou o fidalgo flaviense.
—Peior! redarguiu o genro. Minha mulher dispensa ver o D. José, da memoria do Terreiro do Paço, e as parentas contemporaneas da memoria. Quando cheguei de Bruxellas em 1834, fui procurar os numerosos Mesquitas que por lá estão em Lisboa, e achei uma gente exquisita, que me perguntava se nós cá na provincia tomamos chá. As mulheres pareciam girafas empalhadas. Pelos modos e edade, creio que desde minha bisavó as nossas parentas de Lisboa embalsamaram-se em vida, e ficaram repimpadas nas suas poltronas, á espera da trombeta do juizo final. Querias tu que eu fôsse mostrar essa parentella gothica a minha mulher? Deus a livre, que a pobresinha havia de cuidar que a mettiam n’um salão subterraneo de Pompeia a conversar com as mumias de alguma familia, surprehendida, em oração mental aos deuses, pela onda do betume.
—Está decidido que não saes de Vidago—retorquiu Martinho.
—Isso não sei; mas por emquanto a necessidade não obriga, salvo se Beatriz o exigir.