—Terei—disse resignada Beatriz.

Martinho deteve-se alguns dias no Vidago e saia com frequencia a longos passeios de cavallo com o genro. Da mesmeidade dos annos, da amizade da infancia e sobre tudo da necessidade da expansão, resultou que o morgado da Palmeira, n’um d’aquelles passeios, communicasse ao primo os pormenores todos da sua angustia. O assombro de Martinho Xavier foi afflictivo. Pôde muito comsigo que não lançasse em rosto ao marido de sua filha a protervia, a perfidia, a villania com que tramára o engano, do encontro com a franceza em Villa Pouca; e mais ainda o villipendio do emparelhar o amor de sua filha com o de uma collareja transmissivel de homem para homem. Era santa a indignação do pae!

Ouviu-o silencioso, e apenas lhe disse:

—Vence-te, se poderes; se te não poderes vencer, dá-me minha filha, e vae disputar essa mulher a teu primo Ricardo, que eu creio que lh’a tiras; e elle ou outro, quando estiveres saciado, t’a virão tirar.

Nicoláo pungiu-se e arrependeu-se da revelação.

Exigiu-lhe o juramento de calar o segredo a sua mulher. Martinho Xavier respondeu:

—Quando se trata de affrontar minha filha, escuso de jurar que não hei de affrontal-a. O que te peço é que a deixes ir estar quinze dias em minha companhia.

—Pois sim, mas dispensa-me de acompanhal-a. Espero que a solidão e meditação me curem. Logo que eu me sinta mais tratavel, irei buscal-a, e passarei comtigo algumas semanas. Iremos todos a Madrid; eu mudarei de vida, entrarei outra vez no mundo; e darei á minha pobre Beatriz o contentamento que lhe roubei.

—Deus te ouça!—exclamou jubilosamente Martinho Xavier.

Beatriz cuidou de abafar de alegria, quando o pae lhe noticiou a ida. Tratou de emmalar os seus adornos com tal prestesa, e de tamanho afogadilho, que de sobra denotava a levesa dos dezesete annos, e a facil transposição do seu espirito da dôr para o contentamento. Nicoláo despediu-se d’ella com os olhos a reverem lagrimas. Os de Beatriz nem de leve se marejaram. Partiram.