Ricardo parou, e Nicoláo foi ávante.
—Queria vêr-te indifferente á apparição d’este homem! observou Ricardo com intenção, e gesto magoado.
—Creança! ciciou ella com encantador sorriso. A indifferença é o despreso, e eu odeio.
Entraram silenciosos em casa, e viram ao longe o vulto na esplanada que entesta com a fortaleza. Ricardo saiu rebuçado e armado. O do Vidago já lá não estava. Deteve-se o indiscreto cioso nas travessas visinhas de sua casa.
Eram onze horas.
A franceza abriu as janellas, sentou-se ao piano, e cantou uma romança franceza. As vibrações da voz eram desnaturaes. Havia a paixão da saudade n’aquelle cantar.
Nicoláo de Mesquita escutava-a da janella do hotel, e Ricardo da escuridão de uma viella intransitada.
Calou-se a voz.
O marido de Beatriz sentou-se a escrever a quinta folha de uma carta a Margarida. O castellão de Aguiar foi de manso, por sobre tapetes, até ao piano de Margarida, e surprehendeu-a com os cotovellos apoiados no teclado, e o rosto entre as mãos. Tocou-lhe no hombro: ella expediu um grito argentino como a mais alta das notas que acabava de cantar, e surriu-se por lhe ser mais prompto o riso que as lagrimas.
—Tu amas Nicoláo? perguntou Ricardo com uma precipitação infantil.