—Pois D. José receia—dizia Braz Luiz algum tanto acrimonioso—que um meu filho, se fôr medico, possa parecer judeu?
—Deus me livre de receiar similhante coisa! mas a mim quer-me parecer que a inquisição, quando não ha judeus, encarrega-se de os fazer, talvez por ter lido as santas palavras de Jesus que resam: é necessario que haja escandalos.
—Como amigo—acudiu Braz Luiz—lhe peço que não falle assim diante de alguem. Lembre-se que está em Portugal, D. José!...
—Bem sei, meu amigo; e, se outra vez me esquecer, rogo-lhe que m'o lembre. Agora me estava eu imaginando entre pessoas que muito me estimam, por isso me deixei levar d'uma invencivel propensão a estigmatisar as injustiças, ou ellas partam dos reis, ou dos ministros, dos papas ou dos inquisidores. D'isto, d'esta perigosa exempção e rudeza de espirito, procede não ter eu paragem certa sobre este solo cavado de abysmos, e andar-me sempre perigrinando de solidão em solidão, para ser ouvido da minha consciencia sómente...
—Em nossa casa póde fallar—retarquiu o doutor—como falla a sós com a sua consciencia, D. José Aristizaval. A observação peço-lhe que m'a receba de bom animo, porque entende com o seu socego e deve servir-lhe n'um paiz que vossemecê conhece pouco.
—Mercês, meu amigo!—tornou Francisco Luiz de Abreu.—O que eu sei de Portugal é verdadeiramente a historia da sua inquisição, e pouco mais... Ha pouco lembrou-me o nome de um condemnado ao fogo... tambem medico ou estudante de medicina... mas... passou-me... Deixe estar... Deixe ver... Ah! recordo-me... Chamava-se elle Heitor Dias da Paz... Vossemecê havia de ouvir fallar de Heitor Dias da Paz, que, segundo me affirmaram, andaria por Coimbra desde 1701 até 1704, uma coisa assim, pouco mais ou menos.
Braz Luiz fitara os olhos n'um ponto da fogueira, como quem finge que se está recordando, e disse, corridos dois segundos, com profunda tristeza:
—Conheci-o.
—Pessoalmente?
—Pessoalmente.