É escusado dizer que a justiça secular, comprehendendo ao justo a benignidade e piedade recommendadas pelo santo officio, condemnou o réo a garrote e fogueira para que das cinzas do strenuo defensor de D. João de Bragança não ficasse memoria, como se assim podessem diante da posteridade passar a esponja por sobre uma das mais esqualidas manchas do reinado d'aquelle soberano.
O bacharel Miguel Henriques da Fonseca, advogado em Lisboa, foi queimado vivo em 10 de maio de 1682. Infere-se da leitura da sua sentença que este infeliz dez vezes foi posto a tormento, e com todas ellas foi aggravando a sua desgraça, revelando peccados novos, que o apertar das cordas e o queimar lento do fogo lhe ia arrancando. Afinal, já calejado e invulneravel ás torturas, manifestou-se profitente da lei de Moysés, affrontou no rosto os algozes, e subiu á fogueira com grande animo e anciedade do martyrio.
Por occasião do supplicio do doutor Antonio Homem, lente da universidade em 5 de maio de 1624, um engenhoso poeta contemporaneo publicou, e fez correr, com grande applauso publico, o seguinte soneto em écos ou de reflexo:
«Quando um primario excellente lente
contra a fé cáe em desconcerto certo,
está o que não é tão esperto perto
de seguir o erro que de presente sente,
«Mas quem é da hebrea e negligente gente,
e vendo-se do bom respeito peito
na fé segura do deserto certo
nega a Jesus, que é tão clemente mente
«Povo que elegeu uma bezerra erra;
deixae do vosso velho estudo tudo;
Segui a lei para ser guardada dada;
«que quando em tal descuido cuido
que um bom lente, o melhor da terra erra,
mas sciencia sem Deus tornada nada»
Nunca a piedade inspirou coisa mais insulsa e soez!