Conclusão: Pae é aquelle que é pae.

2.º Ha paes postiços, paes contra-natura, paes testas de... ferro, paes in mente legis, na presumpção da lei, e na fé dos padrinhos de quem são compadres, por obra e graça de um sacramento.

Os homens, reconhecendo a inconveniencia de acceitar a natureza feia como ella ás vezes se apresenta deliberaram, de commum concerto, pôr-lhe mascara.

E como a natureza paterna era uma das que mais a miudo saía á gente com as suas deformidades medonhas, resolveram os desvelados reformadores corrigir os aleijões d'essa natureza, inventando o pae civil, o pae do assento baptismal, o pae da arvore de geração escripta em pergaminho, o pae que transmitte os bens e os appellidos, o pae, finalmente, que tem tudo que é paternal, mas não é pae.

Este invento honra a sagacidade humana; mas a causa{151} que o incitou deturpa a humanidade, e opprime agramente os corações dos individuos virtuosos. Todavia, a mascara foi necessaria, logo que as fealdades deram nos olhos. Hoje acceita-se o remedio do mesmo modo que o travor da quina se tolera para combater a sezão. Os paladares mais melindrosos affazem-se á peçonha, e estomago ha ahi de pae postiço, que disputa a Mithridates a invulnerabilidade.

Eu não applaudo a Sandice como Desiderius Erasmus; mas observo que o famoso theologo chamava «sandice» o que nós cá, gente bemaventurada da civilisação, denominamos «Cultura.»

Erasmus não deu pela theoria das mascaras. Pasmado da bonacheirona paz d'alguns paes impossiveis, exclama o mestre de Bolonha:

«Grande Jupiter! O que ahi não iria de divorcios, e peor do que divorcios, se a união do homem e mulher não fosse corroborada pela lisonja, pela complacencia, pelo esquecimento, e pela dissimulação, que formam o meu cortejo! Que raros não seriam os matrimoniamentos, se o homem de ante-mão esquadrinhasse os brinquedos da innocentinha noiva! Que rompimentos conjugaes, se o descuido ou a inepcia, não cegassem o bom do marido, para não enxergar os tregeitos e os feitios da companheira querida! Dizem que é toleima isto; deixa'-la ser; mas o grande caso é que marido e mulher vivem ás mil maravilhas, que reina a santa paz em casa, e os vinculos da alliança estão rijos. Isto é que é o essencial. Se ao pascacio dão nomes feios, que se lhe dá{152} elle d'isso? Ve'-la a infiel a choramingar; para logo o pobre marido lhe sorve as lagrimas enternecidamente. Qual é melhor, ser assim bom, ou andar atormentado pelas furias do ciume?»

É boa a pergunta do theologo! O melhor é ser assim bom, ser assim illustrado, ser assim desbravado das velharias pundonorosas que obrigaram Cicero e Sulpicio Gallo a divorciarem-se das mulheres, um porque a sua lhe não respondeu a todas as cartas enviadas do exilio, outro porque a d'elle teve a impudicicia de saír um dia, sem coifa, á rua.

Aconteceu isto muito depois do reinado de Saturno, quando o pudor, como pondera Juvenal, já não morava nas primitivas cavernas onde os dois sexos se luravam sobre colchões de folhagem.