Nunes, de tempo a tempo, sustem o monologo para puxar com sorvos sibilantes o vapor de um charuto. Depois, faz um tregeito iracundo, com o pé com sanha, e prorompe na imprecação interrompida, do seguinte theor:

«Arado pelo fogo do inferno seja o torrão maldito onde nasceu a folha d'este charuto!

«A chuva candente de Sodoma e Gomorrha tisne a folha do tojo e do carrasco que nascer no terreno que te produziu!

«Frieiras, gotta, paralysia, e morte tolham os dedos que te colheram!

«O sol, que te seccou, morra nos olhos de quem te trouxe aqui!

«As mãos que te enrolaram, charuto infame, sequem-se{13} e mirrem-se como as das mumias de Memphis.

«E para vós, contractadores, caixas, comarqueiros, e estanqueiros do contracto do tabaco, para vós o inferno illimitado, a região tenebrosa dos condemnados, onde ha o ranger dos dentes, e o sempiterno horror!

«Para vós, Borgias, para vós, raça de Locusta, e de Brinvilliers, para vós, envenenadores impunes, o patibulo n'este mundo, d'onde fugiu espavorida a vergonha e a justiça; e as caudaes de sulphur em combustão eterna nas furnas tartareas, onde é de fé que dá urros medonhos um condemnado chamado Nicot, que trouxe para a Europa o tabaco, e teve a impudencia de o trazer a Portugal em 1560, onde viera com embaixada de França.[[1]]

«Porque os vossos charutos, propinadores de venenos, ennegrecem as substancias organicas, como o acido sulphurico.

«São amargos e causticos como o acido nitrico.