A LUDOVINA
Quem ha ahi que possa o calix
De meus labios apartar?
Quem, n'esta vida de penas,
Poderá mudar as scenas
Que ninguem pôde mudar?
Quem possue n'alma o segredo
De salvar-me pelo amor?
Quem me dará gotta de agua
N'esta angustiosa fragua
D'um deserto abrasador?{199}
Se alguem existe na terra
Que tanto possa, és tu só!
Tu só, mulher, que eu adoro,
Quando a Deus piedade imploro,
E a ti peço amor e dó.
Se soubesses que tristeza
Enlucta meu coração,
Terias nobre vaidade,
Em me dar felicidade
Que eu busquei no mundo em vão.
Busquei-a em tudo na terra,
Tudo na terra mentiu!
Essa estrella carinhosa
Que luz á infancia ditosa
Para mim nunca luziu.
Infeliz desde creança,
Nem me foi risonha a fé;
Quando a terra nos maltrata,
Caprichosa, acerba, e ingrata,
Céo e esp'rança nada é.
Pois a ventura busquei-a
No vivo anceio do amor.
Era ardente a minha alma;
Conquistei mais d'uma palma
Á custa de muita dôr.{200}
Mas estas palmas taes eram
Que, postas no coração,
Fundas raizes lançavam,
E nas lagrimas medravam
Com fructos de maldição.
Em ancias d'alma, a ventura
Nos dons da sciencia busquei.
Tudo mentira! A sciencia
Era um signal de impotencia
Da vã razão que invoquei...
Era um brado, um testemunho
Do nada que o mundo é.
Quanto a minha mente erguia
Tudo por terra cahia,
Só ficava Deus e a fé.
Lancei-me aos braços do
Eterno Com o fervor de infeliz;
Senti mais fundas as dôres,
Mais agros os dissabores...
O proprio Deus não me quiz!
Depois, no mundo, cercado,
Só de angustias, divaguei
De um abysmo a outro abysmo
Pedindo ao louco cynismo
O prazer que não achei.{201}
Tristes correram meus annos
Na infancia que em todos é
Bella de crenças e amores,
Terna de risos e flores,
Santa de esperança e de fé.
Assim negra me era a vida
Quando, ó luz d'alma, te vi
Baixar do céo, onde, outr'ora,
Te busquei mão redemptora
Procurando amparo em ti.
Serás tu a mão piedosa,
Que se estende entre escarcéos
Ao perdido naufragado?
Serás tu, ser adorado,
Um premio vindo dos céos?
E eu mereço-te, que immenso
Tem já sido o meu quinhão
De torturas não sabidas,
Com resignação soffridas
Nos seios do coração.
Que ternura e amor e afagos
Toda a vida te darei!
Com que jubilo e delirio,
Nova dôr, novo martyrio,
De ti vindo, acceitarei!{202}
Se na terra um céo desejas
Como o céo que eu tanto quiz,
Se d'um anjo a gloria queres,
Serás anjo, se fizeres,
Contra o destino, um feliz.
Faz que eu veja n'estas trevas
Um relampago d'amor,
Que eu não morra sem que diga:
«Tive no mundo uma amiga,
Que entendeu a minha dôr.
«Deu-me ella o estro grande
Das memoraveis canções;
Accendeu-me a extincta chamma
Da inspiração que inflamma
Regelados corações.
«Os segredos dos affectos
Que mais puros Deus nos deu,
Ensinou-m'os ella um dia
Que d'entre archanjos descia
Com linguagem do céo.
«Os mimosos pensamentos
Que, de mim soberbo, leio,
Inspirou-m'os, deu-m'os ella
Recostando a fronte bella
Sobre o meu ardente seio.{203}
«Morta estava a phantasia
Que o gêlo d'alma esfriou;
Tinha o espirito dormente,
Só no peito um fogo ardente,
Quando o céo m'a deparou.
«Agora morro no gôso
D'uma saudade immortal.
Foi ditosa a minha sorte;
Amei, vivi: venha a morte,
Que morte ou vida é-me igual.
«Igual, sim, que o amor profundo,
Como foi na terra o meu,
Não expira, é sempre vivo,
Sempre ardente, e progressivo
Em perpetuo amor do céo.»
Assim, querida, meus labios,
Já moribundos, dirão,
Nas agonias supremas,
Essas palavras extremas,
Do meu ao teu coração.
Sabes quem é, n'este mundo,
Quasi igual ao Redemptor?
É quem diz: «Sou adorada
Pela alma resgatada,
Por mim, das ancias da dôr.»{204}

«Por ora, vejo que supplicas amor—disse eu.—A tua poesia é um requerimento que póde ficar esperado muito tempo no gabinete do despacho.

—Fala d'outra maneira... Eu soffro demais para te achar graça. Não é um requerimento esta poesia, meu amigo, é uma expansão de reconhecimento. O amor ditoso chega a entristecer. Tenho a segurança, a segurança que nos dá o coração, de que a alma de Ludovina me pertence.

«Por consequencia tens tudo... Enganei o publico...

—Como enganaste o publico?!

«Puz em romance a historia que me contaste, e disse que a baroneza era uma rocha inabalavel de virtude.

—E receias mentir?!

«Eu já sabia que me não acreditavam... Pois tenho pena, palavra de honra! A meiga imagem de Ludovina havia de ser sempre nova e pura na minha imaginação, como o eterno typo das duas formosuras enlaçadas, a do corpo e a da alma. Rasgava o romance, se elle não estivesse já no prelo, e o dinheiro d'elle transformado n'um cavallo. É tarde para reivindicar a minha honra de romancista ingenuo ou palerma, que anda n'este mundo a querer provar, que as onze mil virgens nunca de cá sahiram.

—Pois que esperavas tu de Ludovina?

«Que morresse abraçada á sua cruz, que désse o exemplo da esposa martyr, da filha sacrificada ao bom nome de sua mãe; que sahisse apenas da sua cella{205} para redobrar de paciencia aos pés do altar; que nunca consentisse que corações degenerados como o teu, e o meu, concebessem a esperança de profana'-la.