—Estás a fazer a alta comedia, ou crês sinceramente que Ludovina degenera? Põe de parte a consciencia de romancista, e deixa fallar a do ente pensante e racional,—e se tu e eu somos indignos de aspirar ao amor da baroneza, crês que um outro, cahindo das nuvens determinadamente por ella, a absolveria do crime horrivel de ter coração?

«O coração de Ludovina estava cheio de sensações, que o faziam participante do amor divino. Que precisão tinha ella do amor dos homens? Estragou uma bella biographia, essa mulher. Talvez fosse unica, e apontada á posteridade como molde. Era uma virtude original; converteu-se em um vicio vulgar. A minha heroina fez bancarrota, falliu, e deixou-me em hypotheca a palavra que eu dei a paginas 170, pouco mais ou menos, de que eram solidos os fundos em virtude, e grandes os haveres em creditos d'esta mulher inimitavel, typica, e biblica, deixa-me dizer assim, porque ella merecia todos os epithetos levantados e grandiosos.

—Mas que fez a pobre senhora para descredito tamanho?

—O que fez?! é boa! auctorisou-te a canta'-la em quintilhas! Um homem de mais alma que tu és, vasaria a inspiração em versos endecasyllabos. Uma mulher assim amada em redondilha maior! É horrivel e immoral!{206}

—Bem! Ainda agora te comprehendi. Estás zombando com ella e comigo, e não sei se com o publico, a quem prometteste uma virtude enfadonha e monotona, como deve ser o teu romance, se te não salvares com a rapida narração que te vou fazer da mais sublime virtude, da virtude por excellencia de Ludovina.

—Qual virtude?

—A de me receber dez cartas, escriptas com o sangue do coração, e... não me responder a nenhuma.

—Mas tu disseste-me ainda agora que tinhas a segurança de que a alma de Ludovina te pertence.

—E tenho.

—Não te respondendo ás tuas cartas? Não entendo.