—É um homem como os outros;—replicou D. Angelica—são todos o mesmo, menina. Teu pae sabe o que faz. Um homem é quem melhor conhece outro homem. Se elle te disse que achou um bom marido, não póde enganar-se.
«Ora essa, mãe! E se eu antipathisar com elle?
—Deves casar, como se sympathisasses.
«Bravo!... e depois?
—E depois, virá a sympathia. Imaginas lá com que repugnancia eu casei? Casaram-me, deixei-me levar porque{22} era uma creança, vivia na aldeia, e sonhava com os vestidos e os bailes, e os theatros do Porto. Depois, teu pae... teu pae adorava-me, dava-me mais do que eu ambicionava, e sem saber como, nem porque, contentei-me tanto com a minha sorte, que não invejava a de ninguem. Tinha vaidade em ser bonita, vestir com gosto, e chegar onde as mais ricas não podiam chegar. Via homens elegantes, reconhecia a differença que os fazia superiores a teu pae, e, comtudo, nunca me passou pela cabeça a loucura, a ingratidão, o crime da infidelidade.[[3]] Posso dizer que principiei a amar meu marido, quando as outras mulheres se enfastiam. Aqui tens o que nunca te disse. Não ha homem nenhum que seja indigno da estima de uma mulher.
«Mas a mãe sabe que eu... amo outro homem.
—Eu não sei se amas outro homem... Sei que namoras outro homem, e entre namorar e amar está o reflectir, menina. Esse rapaz que te manda romances e cartas entre as paginas... (não te inquietes, que sei tudo, e tudo pouco vale...) esse rapaz quem é? Um filho-familia, sem posição, sem modo de vida, que te ama, que será teu marido, se tu quizeres; que viverá das tuas sopas, se as tiveres para ti, que se envergonhará da sua dependencia, quando o amor obedecer á razão; que se enfastiará dos teus carinhos, se quizeres prende'-lo com elles a ti, ou ao berço de teu filho. Se quizesses exemplos,{23} dava'-tos. Tens ouvido censurar duas ou tres amigas, que tens, casadas com homens ricos de cabellos brancos?
«Ainda hontem li um folhetim contra as mulheres que se deixam seduzir pela «fortuna» de estupidas creaturas...
—Lêste? De quem era o folhetim? Se o auctor fôr rico, e tiver quarenta annos, o auctor é insuspeito, e, n'esse caso, digo-te que sujeites o teu destino á determinação do folhetim. Escreve uma carta ao auctor, e conta-lhe que és uma menina pobre, virtuosa, com excellentes joias de espirito. Offerece-lhe o teu coração, e promette que has-de levar-lhe a felicidade com a pobreza. Se elle te vier buscar, peso-te a ouro ao santo que fizer o milagre. Ora, se o folhetinista é um talento raro, um elegante de grande bigode e luneta, mas pobre, faz-lhe o mesmo offerecimento, prevenindo-o de que és tão pobre como elle. Se o folhetinista te vier pedir, é um dia de festa n'esta casa...
Aprende, creança. Os rapazes pobres, se vivem na boa sociedade, criam ahi ambições, que uma menina sem riqueza não satisfaz. Pois não os conheces tu, Ludovina? Não os vês no baile e no theatro namorando um dote como quem namora uma mulher? Não és tu a mesma que censuras a indignidade de certos homens, que recebem resignados todas as repulsas, e teimam sempre em esquadrinhar um dote, como se fizessem voto de casarem ricos, ainda á custa de vergonhas? Vê lá se entre os folhetinistas aspirantes ao casamento de especulação{24} se te depara o nome que hontem lêste... Talvez ainda não reparasses em outra injustiça que se faz ás mulheres pobres, se a fortuna lhes dá maridos ricos. Não ha por ahi rapazes com grandes patrimonios? Recebem elles, por ventura, em casamento meninas virtuosas e pobres? Não. Procuram-nas ricas, e fiscalisam menos a vida honesta da noiva, que o numero de acções do banco, ou o valor da propriedade paterna. Os moralistas de gazeta que dizem d'isto? Sacrificam, talvez, a sua indignação ao amor do sexo: não dizem nada, e rebentam por outro lado em imprecações contra a mulher, que os elegantes ricos rejeitam, e os ricos sem elegancia procuram.