Olha, filha, se te não fosse penosa a experiencia, deixava-te casar por paixão, como se diz, com o primeiro moço pobre que te encantasse. Depois, quando saísses a passeio com teu marido, levarias um vestidinho de chita, por não poderes levar um de glacé. Os taes censores de folhetim ver-te-iam mal trajada, e diriam, no auge da sua pena: «pobre rapariga, fez um casamento infeliz!» Ao teu lado passaria uma das tuas amigas, ricamente vestida, pelo braço de um velho com quem a casaram as conveniencias. Os mesmos censores diriam: «Que mal empregada mulher em semelhante alarve!» Já vês que o estimulo da compaixão, que fizeste, era o teu vestido de chita; e o estimulo de inveja, que fez a tua amiga, era o vestido de seda.
«Mas se eu fosse feliz com o meu vestido de chita, e o homem do meu coração?{25}
—Isso é romance, menina. Nunca é feliz com um vestido de chita a mulher que tem amigas com vestidos de seda. Hoje reina a opinião publica, Ludovina, não é a consciencia de cada um. O agente principal do espirito de uma mulher é a modista. Se ha casadas que envelhecem disputando ás netas a melhor eleição de um talhe de vestido, que farão as solteiras?
Basta de razões insignificantes, que devem humilhar a tua razão, Ludovina. Eu nunca embaracei esse ligeiro conhecimento que tens com o Ricardo de Sá, por saber que nunca seriam tardias as reflexões que te faço agora. Não pódes casar com esse homem sem desgostar teus paes, e grangear para ti o infortunio, e para elle o arrependimento. Se soubesses o que deve ser o arrependimento entre casados, a maior prova de amor que podias dar a esse rapaz, seria esquece'-lo. Tu sabes que vivemos do ordenado de teu pae: temos podido manter a decencia e o luxo até dos teus caprichos de formosa; porém, nada mais podemos. Se tivesses um grande dote, a primeira a diligenciar o teu casamento com Ricardo de Sá, seria eu. Assim, reprovo-o, opponho-me, e serei eu a encarregada de dizer a esse cavalheiro que a tua vontade não é livre, ou que a tua escolha foi outra.
«Não diga tal, mamã. Se casar com o homem que me destinam, a escolha não é minha. Deixem-me, ao menos, este desforço... Fique a responsabilidade da acção a quem me obriga.
—Pois teus paes acceitam a responsabilidade, Ludovina.{26}
O dialogo rematára assim, quando se fez annunciar Ricardo de Sá.
D. Ludovina, com os olhos humedecidos, e desconcertado o semblante, disse á mãe que não podia ir á sala, e recolheu-se ao seu quarto. Foi D. Angelica receber a visita.
Ricardo esperava-a na sala, correndo o teclado do piano, com a sem-cerimonia de um visitante habitual. Apertou-lhe a mão, beijando-a ao estylo da França, cousa que elle vira fazer a quatro ou cinco viajantes distinctos do Porto, que tinham conhecido, em Pariz, a «mesa-redonda» dos hoteis onde estiveram. Ahi vão á pressa dois traços d'este Ricardo de Sá. É um bacharel formado em direito, filho de outro bacharel que faz requerimentos, em quanto o filho, reservado para a magistratura, destino em que se dispensa vocação, faz cartas de namoro com letra ingleza, e timbra em comprar no Moré os mais anilados enveloppes, e o melhor papel-setim de fimbria dourada.
Lê, e empresta os romances aos namoros; commenta-os na margem das paginas, e addiciona-lhes appendices manuscriptos de lavra sua, quando a catastrophe merece ser corrigida.