Além d'isto, o bacharel tem tres bengalinhas, que reveza, todas muito bonitas, com os punhos de massa de marfim, formando uma o grupo das graças, outra o das musas, e a mais embrincada é uma Suzana a saír do banho, espreitada pelo olho lascivo dos arreitados juizes de Israel. Ricardo de Sá consome as manhãs, que principiam{27} para elle ás onze horas, dividindo os cabellos em delgados fasciculos, e lustrando cada um d'elles com um cylindro de cera. Aguça, quanto possivel, as guias do bigode, encerando-as, e enverniza a pera com um oleo contido no decimo nono frasco da terceira serie. Depois, o laço da gravata, e a collocação symetrica do pseudo camapheu é obra de fôlego que lhe dá tempo de assobiar dois actos do Trovador, a aria valida do Rigoletto, e o acto final da Lucia. De seguida, a compostura airosa das lapellas do fraque, a ultima demão de escova, e o aprumo do chapéo onde não ha um fio erriçado, tolhem muitas vezes a saída do peralta, que se encontra com a terrina da sopa do jantar.
O bacharel nutre-se de ar puro, e d'alguns escropulos de carne de boi. O pae, homem roliço e respeitador das immunidades do estomago, suppõe que seu filho desbarata a pequena mezada nas casas de pasto, e não se assusta da inappetencia.
Ricardo crê que o seu estomago destacou tecidos para o coração, reservando para o funccionalismo alimenticio um estomago-miniatura, o quantum satis das compleições sylphidicas. Convicto da excrecencia espiritual, crê-se dotado de fluidos nêrveos, magnetismo, electricidade, etherisação. Julga-se em fim anestesico, espasmodico, dynamico, em fim tudo o mais que não se entende.
Não ama as mulheres, pranteia-as como victimas do seu poder fascinante. Algumas vezes, tem a piedade de as não encarar para as não abysmar. Outras, exerce a crueza da experiencia, fitando-as com o olho carregado{28} de electricidade, fala-lhes com um timbre magnetico que elle sabe, e, não ha que vêr, o somnambulismo é prompto, a attracção é irresistivel como a da cobra-cascavel do Canadá apoz o tangedor da flauta.
Crê tudo isto o bacharel, e ha velhacos que lh'o ouvem com a sisudeza da crença, e lhe não receitam um curativo de causticos.
D. Ludovina Pimenta é uma das suas somnambulas, e a menos victima de todas. Ricardo distingue-a, impondo-se a obrigação cavalheirosa de corresponder-lhe quanto em si cabe para que a infeliz desilludida não tente contra a existencia. Vae ve-la todos os dias, conversa litteratura com a mãe, toma uma chavena de chá sem assucar, e despede-se ás onze horas, dizendo que vae esperar no seu quarto a hora da inspiração matinal para continuar a sua obra intitulada: O SECULO PERANTE A SCIENCIA.
É o que podemos esquadrinhar ácerca do bacharel Ricardo de Sá.
Os homens assim não se pintam; a zombaria não os enxerga na profundeza da sua toleima... são o Rubicon do folhetim, a desesperação da comedia desde Aristophanes até Molière.
O original anda por ahi. Tenho-lhe assestado tres vezes a machina photographica, de rosto; sahiu-me sempre aquillo.{29}