—Quanto em mim cabe, minha senhora... quanto{31} é possivel apaixonar-se um homem de vinte e oito annos, apalpado já pelas desillusões, e esterilisado tanto ou quanto pelos ventos contrarios dos revezes da alma...

D. Angelica fez um geito de quem ouvia chamar; ergueu-se com a mais destra simulação, dizendo:

—Minha filha tocou a campainha... As creadas não a ouvem de certo, eu volto já...

Ricardo de Sá fez mentalmente o seguinte monologo:

—D. Angelica vae propôr-me o casamento da filha. Eis-me entalado n'uma crise imprevista! Está explicado o enygma da carta que Ludovina me escreveu hoje. Receia que eu me esquive á proposta; e tem razão. Eu não caso. Esta mulher está abaixo dos meus calculos. Lisonjeia um amante, mas não póde satisfazer as complicadas necessidades de um marido... É horrorosa a minha posição!... Sei que faço uma victima... de certo a mato... Estudemos uma evasiva, não obstante...

O monologo continuava, quando Ludovina, conduzida machinalmente por sua mãe, se collocava atraz de uma vidraça da alcova immediata á sala.

D. Angelica era um assombro de esperteza. A leitora já admirou a eloquencia persuasiva com que ella abalou o coração da filha; já disse, de si para si, que, com tal mãe, não ha filha que rejeite o casamento de um brasileiro rico; já leu as paginas que ahi ficam á mãesinha para que ella saiba os argumentos com que se vence a desobediencia das filhas, em casos identicos. Pois, se gostou e admirou as palavras de D. Angelica, ha de tambem admirar-lhe as obras.{32}

D. Angelica viu o mais secreto do animo do bacharel; previu o desenvolvimento da conversação, e quiz dar á filha o mais rude, mas tambem o mais proveitoso desengano.

—Nada era... ou era muito... Queria saber como v. s.ª estava—disse a matreira esposa do sr. Pimenta.

—E ella como está agora?