—Soffre bastante... Falei-lhe no seu magnetismo, e a tolinha córou... Era talvez o clarão da descarga electrica, seria?
—V. ex.ª sempre «fazendo espirito» com os axiomas da sciencia... Ha de convencer-se... A experiencia lhe apontará as evidencias...
—A mim? ora essa! Terá v. s.ª a infausta idéa de me magnetisar? Adormecer-me... isso é facil; bastam os livros que tratam da sciencia, não é precisa a acção... Não «faço mais espirito» como v. s.ª diz... Vamos á nossa pratica interrompida que é muito séria:
Disse o sr. Sá que minha filha lhe merecia um sentimento profundamente respeitador, uma affeição nobre e desinteressada, um amor reflectido e bem intencionado, e finalmente uma paixão, que não era bem uma paixão, por quanto desillusões, revezes, et cœtera, lhe haviam... não me recordo...
—Esterilisado a alma...
—Foi isso... Em toda a sua resposta só ha de desagradavel essa esterilidade de alma; todavia, eu creio que tão boa alma ha de sempre florescer e fructificar, quando a cultura fôr confiada a uma mulher de bom{33} coração, meiga, docil, maviosa, em fim, a uma que não inveje as boas qualidades de minha filha.
—De certo... assim o penso, minha senhora—balbuciou o bacharel, forçado pelo silencio interrogador de D. Angelica.
—Minha filha ama-o, sr. Sá. Ama-o delirantemente, perdidamente, quer ser sua ou da sepultura, não acceita admoestações nem esperanças tardias, quer unir-se ao esposo da sua alma, mas já, já, senão... diz que, mais tarde, será victima da sua paixão. Sabia v. s.ª que era tamanho o seu dominio n'aquella innocente alma?
—Sabia... desgraçadamente sabia.
—Desgraçadamente!... essa palavra faz tristeza! Pois nem sequer o orgulho de ser assim amado o alegra?