—Sim, minha senhora—tartamudeou o bacharel, afagando as guias do bigode—tenho orgulho de ser assim amado... Desgraçadamente disse eu, porque me doem os soffrimentos da sr.ª D. Ludovina...
—Estando na sua vontade o mais facil e desejado remedio d'elles? é singular!
—Ainda assim... ha situações na vida...
—Sei o que quer dizer—atalhou a zombeteira senhora—ha situações em que quizeramos immediatamente felicitar as pessoas que soffrem por nossa causa. Isso é assim... Pois bem. Tratemos definitivamente da felicidade da nossa Ludovina. Minha filha, como v. s.ª sabe, não tem dote. É pobre, supposto que o fausto com que vive queira desmentir esta triste verdade. Em riquezas{34} de espirito é millionaria. Nas do coração, sabemos nós o que ella é. A «fortuna» porém, é muitas vezes a inimiga da verdadeira felicidade, não é assim?
—De certo, minha senhora...
—V. s.ª tem uma habilitação, tem uma vasta intelligencia, sobram-lhe expedientes para grangear o sufficiente para duas almas venturosas; agouro a ambos uma felicidade duradoura. Entrego-lhe minha filha, na certeza de que nunca me será turvado o prazer d'este instante de expansão maternal pelo arrependimento da minha leviandade. Dê-me um abraço, que já começo a consideral'-o meu filho.
—Minha senhora—disse o enfiado bacharel, extendendo a mão a D. Angelica—eu estou cordealmente penhorado pela confiança que mereço a v. ex.ª. Cumpre, porém, reflectir n'um passo tão momentoso. Eu amo em extremo a sr.ª D. Ludovina, toda a minha ambição é identifica'-la ao meu destino sobre a terra, mas, minha senhora, eu não posso dispôr da parte de obediencia que devo a meu velho e respeitavel pae, sem consulta'-lo, porque dependo d'elle, em quanto não entrar na carreira da magistratura, e o cabedal dos meus estudos não me abona tanto quanto v. ex.ª imagina que póde proporcionar-me a intelligencia.
—Pensa mui judiciosamente—redarguiu D. Angelica formando com a prolongação dos beiços, e o abrimento dos olhos, um tregeito de mui sisuda approvação—e qual conjectura v. s.ª que seja a resposta de seu pae?
—Não sei, minha prezada senhora...{35}
—Se fôr negativa?