Não se póde aferir o grau de calumnia d'essa carta pelas carantonhas do barão, que a lia. Em carantonha perenne estava elle sempre, lastimoso Amphitryão, desde que a sombra de um Jupiter de casaca lhe assombrava os encantos da innocente Alcmena. Qual seria o espirito rasteiro que se quizesse vasar nas fórmas de João José para enganar-lhe a esposa? Esta pergunta faço-a aos que leram Plauto, Molière, e Camões. Nem ella, com tantos mimos e promessas de delicias, vos faria a vós, leitores sedentos, acceitar a transfiguração hedionda.
O barão tragou a affronta em quanto o bojo o comportava; depois, rebentou, chamando a sogra ao mais escuro do palacete, e dando-lhe a ler a torpe carta.
D. Angelica disse conhecer a mal disfarçada letra de Ricardo de Sá; convenceu-o de que o despeito de uma alma vil devia vir áquella infamia; appellou da calumnia para a consciencia do barão; obrigou-o a confessar que nunca sua mulher saíra de casa sem elle; fez, finalmente, resolver o pestilencial tumor que ameaçava, n'aquella noite, uma supuração escandalosa.
Raivando contra si proprio, (cá estamos na cabeça do capitulo) o barão de Celorico, não podia transigir com{85} as razões da sogra. Terminado o baile, duas ou tres vezes amaxucára a carta na mão convulsa, para a lançar ao toucador de Ludovina, que desenfeitava as tranças e o pescoço.
—Que tens, meu amiguinho?—disse ella, que o vira, no espelho, fazendo esgares com os beiços—parece-me que está agitado!
«Estou bom, muito obrigado, estou como se quer.
—Que modo é esse de responder?—tornou ella, voltando-se de subito para o barão, que passeava, ou antes se rolava de parede a parede com achavascada impetuosidade.
«Está bom; deixe-me, que eu não estou bom, e qualquer dia dou um estoiro como uma castanha.
—O senhor está disparatando! explique-se.
«Foi o diabo o nosso casamento, sr.ª D. Ludovina.