«O senhor está doudo, e, se não está doudo, é um infame malvado!—exclamou Melchior erguendo-se com arrebatamento.
—Sente-se, homem; eu não lhe tenho medo, nem metto a fala no bucho. Ouça, e faça o que quizer; creia ou não, saiba ou não saiba, o que eu lhe digo é que sua mulher tinha um amante, e eu dei esta noite um tiro n'esse homem cuidando que era o amante de minha mulher.
«O sr. barão sabe o que está dizendo? Se tem algum resto de juizo, desdiga-se da affronta que fez á minha honra.
—Affronta?! essa não é má! Pois eu vinguei a sua honra, sem saber o que fazia, e o senhor ainda diz que o affronto! Ora, meu amigo, o senhor é que me parece{127} doudo! Acredite o que lhe digo, sr. Melchior. Este charuto era do amante de sua mulher, que entrava no meu jardim pela porta do muro, e vinha a esta casa todas as vezes que queria.
«Quem, sr. barão? diga quem, quando não um de nós ha de morrer.
Ludovina entrou precipitadamente na sala.
«Quem?! então não diz quem é o amante de minha mulher—repetiu Melchior, em quanto a baroneza cravava os olhos no semblante subitamente desfigurado do marido.
—Que indecentes palavras escuto, meu pae!
«Primeiro as ouvi eu a este miseravel que m'as disse!
—A meu marido? Desculpe-o que elle tem o juizo perturbado. O sr. barão não disse taes palavras com intenção de offender os pais de sua mulher, não é verdade? Essa calumnia foi, um desatino, uma irreflexão, não foi meu amigo? Dê uma satisfação a meu pae, que está afflicto como vê, ou então crave-se um punhal no seio, antes de repetir na minha presença que minha pobre mãe está infamada.