—Para onde?

—Não sei dizer a vossa mercê.

—Como não sabes?! iria para Hespanha?

—Não, senhor. Está em Lisboa; mas não sei onde está. Tudo que havia em casa, ficou como estava. A senhora levou tão somente dois bahús com vestidos seus e da menina. Despediu os criados que eramos tres; e fiquei eu só para ter conta na casa; levou uma criada, e a preta que creou a menina, e despediu as outras. Deixou-me dinheiro para um mez, e disse-me que, no mez que vem, cá mandaria entregar-me egual mezada á que me deixou. Eu desconfiei que a minha ama e menina teriam ido recolher-se em algum convento; mas quero cuidar que, se fosse isso, a senhora m'o diria para que eu podesse saber d'ella e da minha ama pequena, que tantas vezes chorou aqui n'este quarto por vossa mercê...

—Viste-a sahir de casa?—atalhou Domingos Leite.

—Não, meu senhor. Sahiram tão de madrugada que eu apenas dei tento da sahida ouvindo o tropel dos machos da liteira.

—Da liteira da casa?

—Não, senhor. Logo que vossa mercê sahiu de Lisboa, d'ali a dias, minha ama mandou-me vender os machos, o cavallo, a liteira, a cadeirinha, e tudo mais.

—Quem vinha a esta casa depois que eu me retirei?—perguntou mais tranquillo Domingos Leite, abraçando, contra a opinião do criado, a hypothese do convento.

—Apenas aqui entrou trez vezes...