Domingos Leite sahiu em direitura ao Bairro da Marinha, que assim chamavam á parte da cidade convisinha do Tejo. Ahi, contiguo ao convento dos hybernios ou dominicanos irlandezes, era o palacio do marquez de Gouvêa, somente habitado durante o inverno.
Soavam onze horas no relogio do paço da Ribeira, quando Domingos Leite aldravava no portão do mordomo-mór, com o desassombro do seu tempo de secretario. Fallou o porteiro pelo postigo, e disse que o sr. marquez estava na cama. Instou Domingos Leite por lhe fallar, dando-se a conhecer ao pavido porteiro, que levou a noticia ao fidalgo.
Ergueu-se o marquez sobresaltado, e foi receber Domingos Leite, ordenando ao porteiro que escondesse dos mais criados a vinda d'aquelle infeliz a Lisboa.
—Vossemecê aqui?!—exclamou o mordomo-mór.
—É verdade—respondeu Domingos Leite com semblante em apparencia socegado—venho perguntar a V. Ex.ª se me sabe dizer onde está Maria Isabel.
O marquez olhou-o compassivamente, deteve-se silencioso, apoiou a fronte entre os dedos entrelaçados, deu um gemido de sincera magua, e murmurou:
—Fuja, desgraçado; saia de Lisboa... A que veio aqui?
—Buscar minha filha. Não disse eu tantas vezes em minhas cartas a V. Ex.ª que morria de saudades d'ella? Venho buscal-a; mas, não a achando nem a mãe na casa onde ficáram, pergunto a V. Ex.ª onde estão.
Apoz longo silencio do interrogado e rapida mutação no aspecto de Domingos Leite, o marquez, dados alguns passeios na sala, perguntou:
—Contenta-se com levar sua filha, sr. Leite?