—Isto foi um modo figurado de fallar. Deus hade permittir que eu não expie na forca as devassidões da barregan de... De quem? ainda V. Ex.ª me não disse de quem...

—De D. João IV—respondeu serenamente o fidalgo.

—Veja, sr. marquez, que esse augusto nome não me colheu de assalto. Eu tinha-o suspeitado, logo que um meu criado me disse que Antonio de Cavide frequentava a casa da mulher perdida.

Nos beiços de Domingos Leite crispava o que quer que fosse analogo a um sorriso, como se as dôres lancinantes da nevralgia facial lhe vibrassem os musculos labiaes. O marquez contemplava-o. E elle, sem poder exprimir-se, exercitava com as mãos e cabeça uns gestos significativos de torvação.

—Sr. Leite...—disse o mordomo-mór, tocando-lhe affavelmente na mão esquerda com que elle comprimia o coração.

—Sr. marquez...—respondeu muito abatido Domingos Leite.

—Força e alma!

—Sinto que tenho ambas as cousas... e demais! Antes Deus me fizesse mais fraco.

Passados momentos, proseguiu:

—Parece incrivel, mas é atrozmente verdade, que eu peço e desejo que V. Ex.ª me conte como ella se perdeu... Não foi por necessidade, que eu tudo que ella tinha lhe deixei. Não foi por paixão, por que o rei não tem as graças fulminantes que prostrem n'um estrado ou n'um leito real a mulher de alguma honestidade. Então que foi? um longo trabalho de seducção? uma cadeia de perfidias que deram de si a posse pela violencia imprevista? Não pode ser. Ha trez mezes que eu sahi do reino, e ha quinze dias que a rameira se mudou para o real bordel... Como foi isto então, sr. marquez? Faça de conta que refere a historia a um estranho, que afinal se hade rir do marido, e achar que o rei não tinha obrigação de ser mais honrado que o padre Luiz da Silveira...