Domingos Leite, n'este ponto do seu lento e sinistro discorrer, desfechou uma risada estridula que fez frio na espinha dorsal do fidalgo; e logo abruptamente continuou com a maxima gravidade:
—Mas quem diz aos reis que elles são mais invulneraveis que os padres?
—Falle baixo!—acudiu o marquez chegando-lhe a mão tremente até aos beiços—Sr. Leite, olhe que ha muita gente n'esta casa... Peço-lhe que me não exponha, e peço-lhe que se não precipite irremediavelmente...
—Eu fallarei baixinho, sr. marquez—replicou Domingos Leite, quasi em segredo—Perdoe-me V. Ex.ª estas explosões; são relampagos sem raio. Eu não faço mal a ninguem. Sou um proscripto... um proscripto da laia de João Lourenço da Cunha, que lá em Castella usava pontas de ouro. Ora eu, que sou pobre, heide usal-as... da sua natural materia...
E riu rispidamente, esfregando com phrenesi as mãos nos joelhos, com umas figurações de louco.
—Valha-me o ceo!—tornou o marquez de Gouvêa—Cuidei que o infortunio de muitos, em casos desta natureza, lhe daria o exemplo do que é a verdadeira dignidade de um marido...
—Qual é? o despejo?
—Não: é o desprezo.
—E por ventura que sinto eu senão o desprezo por ella? Mas a mim é que eu não posso desprezar-me tambem, sr. mordomo-mór! De uns homens, como o conde D. Gregorio Castello Branco, sei eu que não só não desprezam mas até acatam suas mulheres, se D. João IV houve por bem diffamar-lh'as. Não sei se esta tolerancia é cortezia apprendida na frequencia da côrte. Eu... bem sabe V. Ex.ª que sou da arraia miuda, e creio ainda que me seria mais airoso ter uma esposa honesta que ter-m'a no seu leito el-rei nosso senhor...—E ria-se!
—Meu amigo—redarguiu tanto ou quanto impacientado o mordomo-mór—desculpo-lhe o desabafo das ironias, e até lhe desculparia as mais aceradas injurias a quem quer que fosse; mas não é assim que o seu destino hade melhorar, sr. Leite. Respeitemos a fatalidade e remediemos o que poder ser.