—Na rua dos Vinagreiros. Seria difficil a V. Ex.ª achar de noute o numero da porta.

—Espere... Ás nove em ponto o meu coche hade estar nas teracenas. Vossemecê vai aforrado, entra, e lá me encontra. Então lhe darei noticia das minhas diligencias de ámanhã. Entretanto, se eu antes d'essa hora tiver precisão de lhe dar aviso, como hade ser?

—Em casa de Maria Isabel está um criado a quem V. Ex.ª pode mandar qualquer aviso, que elle irá communicar-m'o.

—Tranquillize-se, sr. Leite, seja homem; sem isso não pode lograr a satisfação de ser pae extremoso.

Domingos Leite curvou-se até beijar a mão do marquez, e sahiu.


XVI

Esperava-o Bernardo com o ouvido collado ao postigo.

Domingos Leite entrou no quarto do criado, sem sensivel mudança no rosto. Palavra, que denunciasse as revelações do marquez, não proferiu alguma. Bernardo perguntou-lhe a mêdo se descobrira a paragem da senhora. Respondeu que não: disse verdade.

Conversaram ácerca de Angela. O pai perguntava coisas tão insignificantes que parecia futilissimo, se não fosse desgraçado em extremo. O criado insistiu outra vez em lhe recontar o caso de ser a menina açafata. Transtornaram-se as feições do amo. Ouviu-lhe o escudeiro um ringir de dentes asperrimo, e um como rugido estrangulado nos gorgomillos. Ás duas horas da noute, Domingos Leite pediu ao criado alguns sobejos da sua ceia. Sentia-se esvaecer de fraqueza. Comeu e disse:

—Aqui tens meio cruzado pela ceia e pelo repouso de duas horas.